O dirigente socialista Pedro Nuno Santos fez eset sábado a defesa da solução governativa do PS e considerou que defender o serviço público “não é radicalismo, é ser socialista”.

Num discurso aplaudido de pé pelos delegados ao 22.º congresso do partido na Batalha, distrito de Leiria, o secretário de Estado dos Assuntos Parlamentares recusou também o debate “sobre rótulos que não interessam aos portugueses”, sobre se o partido é da “esquerda moderada e europeísta”.

Os portugueses, avisou, querem saber se “as nossas soluções resolvem os seus problemas” e o PS não pode deixar de continuar a falar para o povo que esteve na origem do partido.

Pessoas que, alertou, “trabalham mais de 40 horas por semana e “ganham mal, ganham pouco”.

Não é com o PSD e o CDS que os socialistas podem avançar com leis laborais para proteger os trabalhadores e não ficarem “à mercê da discricionariedade do seu empregador”.

Tal como faz na sua moção de estratégia setorial, Pedro Nuno Santos fez a defesa do Estado como um instrumento de desenvolvimento e alertou que "não é com o PSD ou CDS" que se vai "proteger o sistema público" de pensões, de educação ou saúde.

Isto não é populismo, isto não é radicalismo, isto é ser socialista”, concluiu.

"Traição ao eleitorado"

Já depois de Pedro Nuno Santos, francamente ovacioando no Congresso, o histórico Manuel Alegre afirmou que "o PS não está sequestrado por ninguém. Estaria, sim, se tivesse apoiado um governo de direita porque. Seria uma traição ao seu eleitorado. Uma viragem à direita seria um risco de morte para o PS".

O governo do PS, apoiado nos partidos da esquerda, soube virar a austeridade. Nós sabemos fazer melhor contas do que a direita. Foi, por isso, que a palavra "geringonça" começou a ser traduzida noutras línguas. Foi, assim, que Mário Centeno chegou ao Eurogrupo", lembrou Alegre.

 Não ao "braço dado com direita"

Também o ministro socialista Augusto Santos Silva prometeu centrar o combate político “na direita”, justificando que “não se pode avançar no futuro de braço dado” com os que querem “enfraquecer o Estado social”.

Por mim, não combato nenhum socialista de nenhuma tendência ou opinião, combato a direita. Não se pode avançar no futuro de braço dado com aqueles cujo ideário continua a ser continuar a enfraquecer o Estado social, desproteger as pessoas, repor discriminações, tolerar ou acentuar desigualdades”, afirmou, recebendo aplausos de uma sala ainda meio vazia depois da pausa para almoço.

O também ministro dos Negócios Estrangeiros defendeu que as melhores respostas aos desafios atuais só se podem encontrar “no quadro do socialismo democrático”, acrescentando que “é no espaço da União Europeia que elas mais bem podem vingar”.

Santos Silva apelou ao envolvimento de “todos os socialistas sem qualquer exceção” nos debates e combates do partido, sustentando que “quanto mais vivo for o debate interno mais fortes” serão as propostas do PS.

O debate não chega se não for acompanhado pelo combate, igualmente vivo e determinado, e sempre um combate contido e democrático”, defendeu.

Além do combate à direita, Santos Silva disse combater também “as tentativas de retirar autonomia ao PS e negar-lhe o papel de partido central no espaço político português”.

O dirigente socialista rejeitou ainda qualquer pretensão de “limitar a ambição reformista do PS ou diminuir a sua capacidade de se afirmar como partido da esquerda democrática progressista e europeísta”.

Desde do final da manhã, as intervenções políticas sobre as moções de estratégia têm sido intercaladas por pequenos vídeos com o ‘slogan’ “Prometemos, Cumprimos”, onde são destacadas medidas concretizadas pelos socialistas ou as metas orçamentais alcançadas.

Maioria absoluta

Por seu turno, o líder do PS/Açores, Vasco Cordeiro, foi dos que defendeu no Congresso que o PS deve pedir a maioria absoluta nas próximas legislativas, e classificou como “instrumentais” os partidos que apoiam o Governo.

Na sua intervenção perante o 22.º Congresso do PS, o também presidente do Governo Regional dos Açores foi o primeiro dirigente socialista a defender que o partido deve pedir a maioria absoluta, dizendo ser um “debate prematuro, apressado e precipitado” a discussão sobre como deve ser a solução governativa no pós-2019.

Prematuro porque tal significa prescindir já daquilo que me parece legítimo, possível e desejável, que é o PS pedir aos portugueses um reforço de confiança que se traduza numa maioria absoluta nas próximas legislativas”, defendeu, recebendo um forte aplauso dos congressistas.

Para Vasco Cordeiro, o compromisso do PS é “com o país e com os portugueses e não deve estar subordinado aos interesses de outros partidos sejam eles quais forem”.

O PS é o equilíbrio virtuoso entre vários interesses em presença, os partidos que apoiam este Governo são instrumentais para garantir esse equilíbrio virtuoso”, apontou.

O dirigente socialista apontou que um Governo do PS tem responsabilidades “bem para além da simples reversão da austeridade”, a de “pôr o país no caminho do crescimento económico”.

Medina defende partido realista que saiba onde procurar alianças em cada momento

O dirigente e autarca socialista Fernando Medina defendeu que o PS tem de concretizar os seus ideais com o realismo de um partido de Governo, sabendo ler o contexto e onde procurar alianças em cada momento.

Numa intervenção no segundo dia do 22.º Congresso do PS, na Batalha, distrito de Leiria, Fernando Medina afirmou que "ideário sem ação é um vazio", acrescentando: "Nós não somos um partido da proclamação retórica e vazia".

"Nós somos um partido que todos os dias, em todos os momentos, em todas as alturas tem de saber ler o contexto, tem de saber onde se mexe, tem de saber onde procurar alianças, tem de saber a forma como transformamos a realidade para uma sociedade melhor para todos", defendeu.

Segundo o presidente da Câmara Municipal de Lisboa e membro do Secretariado Nacional do PS, este Congresso convoca os socialistas a refletirem sobre a aplicação dos seus ideais nos tempos atuais.

"Como é que atualizamos o nosso ideário, como é que transformamos os ideais de liberdade, de desenvolvimento, de justiça, como é que os concretizamos nos dias de hoje e como é que os concretizamos com o realismo e com a noção de que nós somos um partido de Governo", disse.

Fernando Medina subscreveu os quatro desafios estruturais traçados pelo secretário-geral do PS, António Costa, demografia, sociedade digital, políticas de combate às desigualdades e alterações climáticas.

"A própria escolha dos temas diz muito sobre a atualização do nosso ideário", considerou, argumentando que procurar políticas concretas para responder a esses desafios, discutir temas como a economia digital, a formação profissional ou o combate à precariedade é lutar pelos mesmos valores de sempre do PS, a liberdade, a igualdade, a justiça social e o progresso.

"Nada há de mais progressista, nada há de mais revolucionário, nada há de mais socialista do que este objetivo para o futuro", declarou.

Elencando outros temas, como os fundos comunitários ou o transporte coletivo, Fernando Medina concluiu: "É por isso que esta agenda que nos é colocada não é uma agenda de outro partido, de outra frente política, e não é uma agenda proclamatória, é uma agenda do futuro da liberdade, da igualdade e do progresso para todos".