Começou morno (para o frio), teve alguns picos de entusiasmo, o primeiro com a surpresa (única) de António GuterresOutros momentos de agitação, como as sirenes dos colégios que ecoaram à porta do 21º congresso do PS.

O secretário-geral viu a sua moção aprovada no segundo de três longos dias de trabalhos. Na reunião magna dos socialistas, várias figuras se destacaram. Nem todas elas óbvias.

ANTÓNIO COSTA
 
 
 
O mais óbvio, mas incontornável. Viu, como se previa, a sua moção "Cumprir a alternativa, consolidar a esperança" aprovada, mas foi sobretudo pelos discursos que se distinguiu. Sem despir a pele de primeiro-ministro, anunciou uma série de medidas e  defendeu o ministro da Educação com unhas e dentes ao responder à manifestação dos colégios que tinha à porta.
 
Não se ficou por aí:  endureceu o tom contra uma União Europeia "imoral" não só por causa da ameaça das sanções a Portugal, mas também com as suas palavras sobre os refugiados, que mereceram grande ovação e aplausos de pé.
 
Enquanto líder do PS, congratulou-se com a geringonça e agradeceu aos líderes de BE, PCP e PEV;   traçou a estratégia para as autárquicas e tirando outra vez partido do seu cargo de chefe de Governo, estabeleceu o calendário de, até ao final do ano, a descentralização acontecer de uma vez por todas. 
 
 

FRANCISCO ASSIS

Já esteve na corrida à liderança, mas sentou-se nas últimas filas do congresso. Figura central de oposição à geringonça, o seu discurso era provavelmente o mais aguardado. Rapidamente foi alvo de assobios, mas acabou aplaudido no fim. Pensa "exatamente" o mesmo que há seis meses e até disse mais: o "vírus ideológico" da esquerda radical já está a contaminar o PS. Sabe que está isolado e lamenta a "crueldade" de alguns.

Alguns seguristas enviaram-lhe abraços no discurso. António Costa também o aplaudiu e, um dia depois, citou-o: "Como aqui ontem disse o Francisco Assis, a diferença nunca foi dissidência". O líder do PS diz que não há "feridas por sarar" e congratulou-se com o "debate aberto" do partido.

 

GERINGONÇA

Não é uma pessoa, mas simboliza quatro e quatro partidos que compõem a solução governativa à esquerda: António Costa (PS) Catarina Martins (BE), Jerónimo de Sousa (PCP) e Heloísa Apolónia (PEV). Foi uma palavra utilizada sem complexos desde o primeiro dia do congresso, mas para dela se tirar proveito positivo.
 
Se até as vacas podem voar, a geringonça "também está cá, funciona e é para durar", assegurou a secretária-geral adjunta Ana Catarina Mendes. O histórico socialista  Manuel Alegre até se riu com o drama à volta da mesma.
 

 

MINISTRO DA EDUCAÇÃO
 
 
Virou protagonista no último dia do congresso, quando se confrontou com uma manifestação à porta. Os colégios saíram à rua mais uma vez contra os cortes nos contratos de associação.
 
Não subiu ao palco, nem respondeu, mas viu o primeiro-ministro defendê-lo perante o congresso com unhas e dentes:  “Temos um ministro que tem a coragem de enfrentar os lóbis e investir onde é necessário. O que ouço dizerem sobre Tiago Brandão Rodrigues não é metade do que disseram quando António Arnaut lançou o SNS".
 
 
 
AUTÁRQUICAS
 
 
Outro tema trazido ao debate desde o primeiro momento. As eleições são só no outuno de 2017, mas aguardava-se que o congresso delineasse o plano. Houve vários contributos, com autarcas a pedirem maior autonomia. António Costa, nostálgico, lembrou os seus oito anos nesse papel, traçou diretrizes "para ganhar", valendo-se também da sua posição de primeiro-ministro: até ao final do ano a descentralização vai mesmo acontecer. Pelo menos, ficou a promessa.
 

ANTÓNIO ARNAUT

O pai do Serviço Nacional de Saúde foi eleito presidente honorário do PS. O anúncio mereceu grande ovação na sexta-feira, no sábado o próprio se mostrou emocionado com o reconhecimento, sem precisar de modéstias: "Desculpem a franqueza, mereço. Mereço por ela ter um significado simbólico". Recebeu numerosos e muito audíveis aplausos.

Com um sentido de humor ímpar contou que disse a Costa que, com isto, lhe deu mais um ano de vida e que ele lhe respondeu que seriam pelo menos dois, o tempo do mandato. O líder do PS também espera continuar a receber os seus "puxões de orelhas". Arnaut terminou a saudação ao congresso com uma mensagem: "Vamos pela esquerda, que é o lado do coração". 

 
EUROPA

 
Não só pela presença de figuras do Parlamento Europeu (o seu presidente e o líder dos socialistas europeus), mas sobretudo pelo estado a que chegou com a crise dos refugiados e com a "neoliberalização" que vive, segundo os congressistas.
 
Até o presidente do Parlamento Europeu,   Martin Schulz, (na foto) se mostrou assumidamente contra as sanções a Portugal.  António Costa também endureceu o tom contra esta União Europeia "imoral". Pacheco Pereira, convidado a participar num debate, desafiou mesmo o Governo tão-só a rasgar o Tratado Orçamental.
 
 

PACHECO PEREIRA

Foi, precisamente, um dos protagonistas. As críticas acérrimas à Europa marcaram o seu discurso e, na mesma linha, aquele desafio feito ao Governo.

As suas palavras aqueceram a plateia como poucas vezes, com aplausos dignos de protagonista, a léguas de distância daqueles que receberam outros militantes mais ou menos conhecidos que também intervieram. 

 

PROTAGONISTAS AUSENTES

José Sócrates não marcou presença no congresso, mas foi citado algumas vezes. O socialista que apresentou uma moção rival de Costa, Daniel Adrião, enviou-lhe "um abraço". Paulo Campos, seu ex-secretário de Estado das Obras Públicas, também não o esqueceu: "O que posso dizer sobre José Sócrates? Um abraço para todos os que sempre honraram a história do PS dando corpo aos nossos valores e às nossas ideias". E ainda, pelo menos, uma militante socialista, que fez um discurso entusiástico condenando a "injustiça" da sua prisão.

António José Seguro, o líder socialista derrubado por António Costa, como se esperava também não compareceu. Daniel Adrião foi o primeiro a recordá-lo, logo no primeiro dia do congresso. E outros seguristas, como Álvaro Beleza e Eurico Brilhante Dias, representaram-no.

Mário Soares e Jorge Sampaio também não marcaram presença, o primeiro por razões de saúde e o segundo por uma "situação temporária", como foi descrita, mas enviou uma mensagem a congratular os congressistas.  

O congresso não esqueceu, aliás, lembrou por várias vezes, em discursos, imagens e vídeos antigos, os históricos socialistas que morreram recentemente, como Almeida Santos e Maria Barroso, alvo de homenagens.

A SALA MEIO CHEIA (OU MEIO VAZIA) E O MILITANTE ESTRELA

O congresso arrancou a meio-gás na sexta-feira, com metade dos cerca de 1700 lugares por preencher no pavilhão da FIL. E demorou a encher. No sábado o pavilhão estava já mais composto, mas havia ainda um grande número de lugares por preencher. Esse foi o dia mais longo, com as intervenções dos militantes a prolongarem-se para além do previsto, e também o que teve as “vozes discordantes” como Francisco Assis. Só no domingo, o último dia do congresso, houve realmente uma grande massa humana na FIL.

Nos três dias, uma única bandeira no ar, à antiga, erguida pelo autarca de Coruche, Joaquim Banha, que foi também o primeiro, e dos poucos, a responder lá fora aos protestos dos colégios

Veja aqui os principais momentos do congresso do PS