Primeiro dia morno (para o frio) no 21º congresso do PS, metade da plateia vazia na noite em que António Costa foi o último a saudar os militantes socialistas. Várias vezes de pastinha na mão, como é seu apanágio. Nos tempos anteriores às eleições, começou por erguer o cenário macroeconómico, depois o programa eleitoral do PS, que hoje voltou a trazer. Os últimos dias foram pródigos em antecipações desta reunião socialista. Com as autárquicas no horizonte, embora sejam só no outono do ano que vem, já se adivinhava que seriam tema do congresso e o secretário-geral desde logo reafirmou o que "simpaticamente" Jerónimo de Sousa disse sobre essas eleições.

"Como diz simpaticamente Jerónimo de Sousa (PCP), nem há pacto nem há agressão porque disputarmos democraticamente as eleições uns aos outros não é uma forma de nos agredirmos. É ser cada um o que é" 

O secretário-geral do PS assumiu assim que cada partido vai apresentar as suas próprias listas. Antes, já o presidente da federação de Lisboa, Marcos Perestrello, tinha introduzido o tema, elencando desde logo os objetivos: manter municípios e conquistar aqueles que o PS ainda não governa. "Em todos vencer".

"Estamos prontos para transformar as áreas metropolitanas do Porto e de Lisboa. Mas só faz sentido com o reforço de competências. É um desafio para o Governo. Vai ter de derrubar as suas próprias barreiras. Descentralização: que poder está disposto a abdicar?"

Perestrello argumentou ainda que só com municípios mais fortes, o Estado será mais forte. Está dado oficialmente o tiro de partida para as autárquicas, e outras intervenções se esperam durante o fim-de-semana.

"Respirar de alívio" com a alternativa

Sem agressão, mas com pacto há a "geringonça" . Sem usar o termo de Paulo Portas, António Costa assume as dificuldades, mas faz notar que a alternativa é mesmo possível e está a dar frutos. Disse-o à entrada, repetiu-o para a plateia

"Foi difícil para nós, foi certamente difícil para eles, temos percursos bastante diferenciados e objetivos que não são comuns. Mas fomos capazes de superar as diferenças e de nos entendermos naquilo que era fundamental. Depois de quatro anos de uma política de direita que quis ir para além da troika (...), os portugueses queriam respirar de alívio (...). Para isso, era necessário uma nova alternativa", começou por dizer.

Nem Catarina Martins, nem Jerónimo de Sousa estão presentes no congresso, embora tenham aqui representantes. António Costa saudou os partidos que lideram e o facto de terem assumido a sua responsabilidade política. Para isso, recordou as suas palavras no último congresso socialista, em novembro de 2014.

"Não quero alimentar tabus, nem deixar qualquer tipo de equívoco. Recusamos o conceito de arco de governação (...) Que fique claro, não excluiremos os partidos à nossa esquerda, da responsabilidade que também têm de serem não só partidos de protesto, mas partidos de solução para os problemas nacionais"

Até porque, ironizou, um país onde toda a gente apela aos consensos, "quem pensa que só há consenso bom" com a direita, está enganado. Disso mesmo quis dar provas, ao enumerar de forma efusiva a maioria das medidas aplicadas pelo seu governo, com o apoio parlamentar à esquerda e anunciando aquilo que se pode esperar para o futuro mais próximo, como a aprovação em Conselho de Ministros, já na próxima semana, de mil milhões para a reabilitação urbana e a reafirmação de que o IVA da restauração baixa mesmo em julho.

Rutura reafirmada com PSD e CDS: "PS não é refém"

Como já tinha feito na campanha eleitoral, António Costa sugeriu que o medo lançado pelo anterior governo quanto à inevitabilidade da austeridade aprisionou os portugueses. E chegou mesmo a associar isso à perda da democracia.

"Essa ideia de que não há alternativa é a ideia mais perigosa que é possível ter em democracia. A democracia vive de escolhas com base em alternativas. Quando não há alternativas, não há escolha. Quando não há escolha, não há democracia. O que estamos a fazer é devolver a democracia: escolher se queremos ir por aqui ou continuar a ir por ali"

A rutura com a direita é repetida de várias formas no discurso do líder socialista, para quem "um PS capturado e refém da direita não cumpre a sua missão histórica". Ao mesmo tempo, sendo o partido do Governo, não deve ser por ele capturado. 

"É importante que o PS não se desvitalize: o trabalho partidário não se esgota na ação do governo. trabalho no dia-a-dia, sindicatos onde militamos, autarquias, parlamento europeu, assembleia da república, assembleias municipais, juntas de freguesia. PS tem de estar ativo e participativo em todas as frentes. Isso é absolutamente essencial".

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