O parlamento aprovou esta sexta-feira um voto de congratulação pelo 25º aniversário da queda do muro de Berlim, com o voto contra do PCP e a abstenção do BE, e os votos favoráveis de PSD, PS e CDS-PP.

A votação foi antecedida de intervenções de deputados de todos os grupos parlamentares e de uma discussão sobre se o voto devia ser lido na totalidade, já que PEV e BE argumentaram que havia uma discrepância entre o título e o teor expositivo, tendo a mesma argumentação levado o deputado socialista Sérgio Sousa Pinto a apresentar uma declaração de voto, dizendo só concordar «com a parte resolutiva e não com as referencias descabidas feitas anteriormente».

A parte resolutiva afirmava que a Assembleia da República se associava «às comemorações do 25º aniversário da queda do muro de Berlim», evocava e prestava homenagem «às vítimas de todos os sistemas políticos totalitários» e reafirmava um «profundo comprometimento com a defesa dos valores da liberdade, da democracia e do respeito pelos direitos humanos».

Numa parte expositiva anterior, o voto recordava «as personalidades notáveis que deram um contributo extraordinário para a criação de um contexto que possibilitou a derrota de uma determinada visão do mundo: o papa João Paulo II, o secretário-geral do PCUS Mikail Gorbachev, o sindicalista polaco Lech Walesa, o presidente norte-americano Ronald Reagan, os chanceleres alemães Helmut Kohl e Willy Brandt, a primeira-ministra britânica Margaret Thatcher e o presidente francês François Miterrand».

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A deputada comunista Carla Cruz considerou o voto «mais uma tentativa para reescrever a história e branquear a realidade atual» e argumentou que «não houve mais prosperidade nem mais justiça na redistribuição de riqueza» desde a queda do muro, considerando ainda que o mundo está não só «mais injusto» como «mais perigoso».

«Há 25 anos propagandearam que vinha aí o reino da paz e da prosperidade universal. Nestes 25 anos, a vida e a realidade desmentem de forma cabal e categórica a propaganda então feita do progresso e da abundância, do respeito pelos direitos humanos e a paz», afirmou, acrescentando que, nomeadamente na União Europa, há «fome e miséria» e «a milhões de trabalhadores é negado o direito ao trabalho».

O deputado bloquista Luís Fazenda disse que «o BE saúda os 25 anos da queda do muro de Berlim», bem como como «todos aqueles que lutaram tantos anos», por isso argumentando que o seu partido entende que «o socialismo ou tem democracia ou não é socialismo, é uma caricatura de socialismo».

Contudo, o Bloco considerou que o voto «é mais um homenagem» a Reagan, Thatcher e João Paulo II, «que outra coisa», e condenou a existência de «outros muros que a União Europeia está a criar», argumentando que a situação dos migrantes na ilha italiana de Lampedusa é disso «o símbolo».

Entre os partidos que aprovaram o voto, foi o deputado do CDS-PP José Ribeiro e Castro quem mais longe foi no ataque aos regimes comunistas do Leste europeu.

Ribeiro e Castro referiu-se às 80 pessoas que morreram a tentar atravessar a construção erigida depois da ida para Ocidente de três milhões de pessoas «que queriam fugir do paraíso comunista».

«É necessário reconhecer, 25 anos depois, que, infelizmente, se o fascismo pode continuar em alguma parte da Alemanha, foi naquela do lá de lá do muro. Despido dos horrores e da ignomínia do Holocausto, mas o fascismo pode continuar na Alemanha até 9 de novembro de 1989, até à queda do muro, até à possibilidade da reunificação alemã e da liberdade de circulação em toda a Europa. É isso que nós saudamos hoje», declarou.

Antonio Rodrigues, pelo PSD, saudou a queda de um muro que, disse, reuniu «comunidades separadas por arame farpado e por ferro», e falou contra «aqueles que gostam de criar muros».

Num registo semelhante, o socialista Paulo Pisco considerou que «a queda do muro não foi apenas o fim de um muro bipolar, foi também o início de uma nova era em que a democracia e o desenvolvimento chegou a muitos países dominados pelo totalitarismo».