O ex-administrador financeiro do BES e do Novo Banco João Moreira Rato foi ouvido esta quarta-feira na comissão de inquérito parlamentar, entre muitas críticas à sua postura perante os deputados. Num ato inédito, o presidente da Fernando Negrão foi mesmo obrigado a avisar não uma, nem duas, mas várias vezes, que Moreira Rato podia estar a cometer um crime. 

Um dos momentos mais evidentes da resistência de Moreira Rato foi quando a deputada do PS Ana Paula Vitorino tentou saber se «alguém» o tinha sondado para a administração do BES, antes do convite formal feito por Vítor Bento, a 4 de julho. O interveniente devolveu a pergunta: «Mas quem, senhora deputada?». Ana Paula Vitorino insistiu exatamente na mesma questão. E, uma vez mais, Moreira Rato tentou contornar. «Quem é que a senhora deputada tem em mente?», insistiu, por sua vez, Moreira Rato.

Os deputados não gostaram. Afinal de contas, quem estava ali para fazer perguntas eram eles e não o contrário. Fernando Negrão acabou por avisar Moreira Rato, de forma mais veemente, que a mentira ou a omissão, perante o Parlamento, pode configurar «um crime de desobediência qualificada».

O ex-administrador do BES lá acabou por assumir que o governador do Banco de Portugal, Carlos Costa, o sondou para o cargo de CFO.

De todos os grupos parlamentares, foi evidente o incómodo causado pela resistência de Moreira Rato em responder ao que quer que fosse. E todos os deputados que intervieram quiseram deixar isso explícito, aos microfones.

 «Esta comissão esperava de si outro tipo de testemunho». «Entrou para o BES numa altura vital» e, hoje, num «estilo um pouco peculiar», deu a entender «que estava com dificuldade em responder, dando ideia que tem responsabilidade alguma em coisas em que não tem», afirmou, por exemplo, Duarte Marques, na esperança de que Moreira Rato descontraísse um pouco. Já estávamos praticamente na reta final da audição.  

A terminar os trabalhos, o presidente da comissão de inquérito também fez questão de assinalar que as coisas podiam ter ocorrido de outra forma. Falou diretamente para Moreira Rato: «Se estivesse estado na primeira parte como na segunda, teria estado ainda melhor».

«Começou desconfiado relativamente às perguntas que lhe queríamos propor. Tenho a certeza que sai daqui não tendo necessidade nenhuma de ter essa desconfiança», continuou Fernando Negrão. Moreira Rato tentou defender-se:

«Muitos destes temas são temas melindrosos, como sabe. Alguns deles estão em investigação e outros em litigância. Eu não queria de maneira nenhuma induzir esta comissão parlamentar de inquérito em erro, de algo que não me lembro ou não me recordo bem»


O presidente da comissão retorquiu: «Houve excesso de cautela da sua parte, e esta comissão merecia mais».

Das respostas possíveis que os deputados foram arrancando, a conta gotas, Moreira Rato revelou que foram «várias» as «surpresas» que teve quando chegou ao BES, tendo encontrado um banco bem diferente do que lhe tinha sido transmitido, na altura em que foi convidado para a administração que viria a suceder a Ricardo Salgado. Foi substituir Morais Pires, que não lhe não passou a pasta.

A solução do aumento de capital era a que estava em cima da mesa, nem nunca imaginou que a resolução que dividiu o BES em dois fosse uma hipótese. A recapitalização privada podia demorar dois meses, mas isso não seria um problema, ao contrário do que foi argumentado pelo Banco de Portugal.

Sobre os contactos mantidos com representantes políticos nos últimos dias do BES, disse que só falou com ministra das Finanças.

A sua estimativa é que o BES perdeu 6 mil milhões em depósitos só nas duas últimas semanas de vida