O prémio Norte-Sul do Centro da Europa foi entregue, esta quarta-feira, à Dra. Maura Lynch e a André Azoulay.

Maura Lynch, de 76 anos, é uma freira irlandesa que trabalha no Uganda desde 1987. Antes tinha estado 20 anos no Sul de Angola onde chefiou o hospital da missão de Chiulo. Esta médica trabalha na área da fistula obstétrica. 

O outro galardoado é André Azoulay, conselheiro sénior do Rei de Marrocos. Azoulay tem trabalhado na promoção do diálogo entre culturas, populações, mulheres e homens da bacia do Mediterrâneo. Recebeu o Prémio Norte-Sul também pelo trabalho para a reconciliação entre judeus e muçulmanos.

Na cerimónia de entrega do Prémio Norte-Sul, Maura Lynch disse sentir-se honrada e agradeceu à equipa que com ela trabalha no hospital de Kitovu, no Uganda e às Missionárias Médicas de Maria. A médica salientou que as mulheres com fístula obstétrica são discriminadas e afastadas do contacto social. Maura Lynch contou um caso que a marcou.
 

"O ano passado tratei uma senhora com 85 anos que tinha uma perda involuntária de urina há 40 anos devido a uma lesão do parto. 40 anos de falta de indignidade depois da perda de 9 dos seus 10 filhos! Conseguem imaginar a felicidade desta nova vida? Eu e ela dançamos juntas! É deveras um privilégio fazer parte deste ministério tão recompensador"


A fístula obstétrica acontece sobretudo por problemas no parto que para esta médica irlandesa "podem ser evitáveis". Maura Lynch pede mais nutrição para as raparigas, melhor acompanhamento na gravidez e apoio profissional durante o parto. 

Já André Azoulay diz que o prémio vai direito ao seu coração. O conselheiro sénior do Rei de Marrocos lembra que a sua "cruzada de mais de meio século para que as opiniões públicas, religiões, identidades, histórias não sejam instrumentalizadas por ninguém nem tomadas de refém por ninguém".

Azoulay diz ter "o privilégio de encarnar a arte de todos os possíveis: o cidadão marroquino que sou, judeu, berbere, árabe e existo. Existo e resisto e recuso que a minha religião, a minha história, a minha identidade, a minha civilização sejam instrumentalizadas para as violentar e utilizar para fazer recuar o mundo." 


O galardoado lembrou os ataques terroristas desta última semana na Tunísia,no Koweit e em França. "Já não podemos celebrar o diálogo, a tolerância, a paz sem tomar a medida justa destes dramas que marcam o nosso quotidiano", defendeu pedindo união para "reconquistar a modernidade social que caracterizava as relações internacionais."

André Azoulay foi presidente da Fundação Euro-Mediterrânea Anna Lindh para o Diálogo entre Culturas e é, desde 2005, membro do “Grupo de Alto Nível” da “Aliança das Civilizações” das Nações Unidas. Além disso, é um dos fundadores do Grupo Aladin que atua para a promoção da compreensão mútua e das relações interculturais entre a comunidade Islâmica e o Resto do Mundo.

Na cerimónia, o Presidente da República assinalou os 25 anos do Centro Norte-Sul que se comemoraram durante o último ano, constituindo "um quarto de século ao serviço da sensibilização dos temas da interdependência global e da promoção de políticas de solidariedade, em conformidade com os objetivos e princípios defendidos pelo Conselho da Europa".

"Os tempos conturbados que vivemos - marcados pelo aumento do radicalismo, da intolerância e da violência, e ilustrados pela ocorrência, ainda este ano, de trágicos acontecimentos em Paris, Copenhaga, Tunes e Sousse - reforçam a necessidade de continuar a promover o diálogo intercultural, a democracia e os direitos humanos, bem como a sensibilização para a realidade da interdependência global."


O Prémio Norte-Sul é entregue anualmente a duas personalidades que se destaquem pelo compromisso, empenho e promoção dos direitos humanos, pluralidade democrática e reforço da solidariedade Norte-Sul.