“Do “enterro” político de António Costa na noite eleitoral que muitos anteciparam, o líder do PS ficou e está a dar luta. A tentativa de compromisso à esquerda por si encetada merece elogios na edição desta quarta-feira do Charlie Hebdo, num texto que, atenção, não é nada satírico e prima pela análise política, ao mesmo tempo que aconselha as esquerdas em Espanha e França a aprenderem com o caso português. Onde, afinal, "a união à esquerda faz a força", reza o título. 

O autor do artigo, Jean-Yves Camus – um politólogo francês especialista em extrema-direita – assinala que tão depressa como foi antecipado esse enterro político do líder socialista, também “muito rapidamente” ele se deu conta que “tinha tudo a perder indo para o poder com os conservadores” da direita.

Daí ter-se virado para uma aliança com a “esquerda radical”, PCP e o ”incontestável vencedor das eleições”, o Bloco de Esquerda. Partidos que souberam, como o primeiro-ministro grego Alexis Tsipras, abandonar “de momento o programa de sair do euro”, dando uma “prova de realismo”.

Ou seja, estes dois países mostram que “a esquerda antiliberal pode ser outra coisa que apenas de protesto ou e/ou uma utopia”. Tudo graças ao denominador comum contra a austeridade que uniu comunistas e a "esquerda antiliberal" ao PS.

“Como na Grécia, com concessões ao realismo para salvarem o essencial: bater uma direita antissocial”.


Ao mesmo tempo, acrescenta uma parte da “base militante” do PS “virou para o Bloco de Esquerda e para a sua figura de proa, Catarina Martins”. A nova liderança com o “sangue novo” de Costa acabou por devolver uma “perspetiva” ao partido que, recorda, está “minado por escândalos”. Jean-Yves Camus não aborda a divisão interna, antes realça a capacidade de compromisso dos socialistas.

Portugal, um país “injustamente ignorado” e as suas eleições são, por isso, uma “lição” e merecem “meditação” por parte da esquerda espanhola e francesa. O cartoon associado ao texto é, de resto, o líder do PS francês, Jean-Christophe Cambadélis, satisfeito com um referendo para unir a esquerda quando em Portugal as forças políticas avançaram livremente para o entendimento.

O autor congratula-se ainda pela falta de expressão que a extrema-direita tem em terras de Camões, com apenas 0,5% nestas legislativas. Isso demonstra que “não há nenhuma fatalidade que conduza a que seja esta família política a ganhar com a recessão!”

Outra prova de maturidade lusa é a sua “tolerância cultural”. O artigo termina lembrando que o próprio António Costa é “mestiço”, já que o seu pai nasceu em Goa. E que isso é, felizmente, um “não-assunto” no país.