As oitenta vacas que Pedro e Manuela Pimenta alimentam diariamente sustentaram-nos durante 15 anos. Permitiram-lhes criar três filhos e aspirar a uma "vida boa". Manuela diz que “uma vida boa” foi a promessa que Pedro lhe fez quando embarcaram nesta aventura, depois de terminarem o curso na Escola Superior Agrária de Coimbra. Agora, as oitenta vacas, são oitenta problemas. 

Enquanto o casal desfia mágoas, Jerónimo de Sousa chega à produção localizada em Cioga do Campo. Cumprimenta os presentes e visita as instalações. Depois debruça-se sobre uma vedação metálica e contempla os animais no pasto. Quando se vira, tem os microfones apontados. Lamenta o “sufoco dos produtores e das suas famílias” e “o agravar dos problemas num setor em que éramos auto-suficientes”.

“No momento em que se liquidaram as quotas (leiteiras) começou o princípio do fim”, diz o candidato da CDU, avisando que os produtores nacionais “não aguentarão muito tempo sem a necessidade de uma regulação, particularmente com a orientação da UE”.


Uma regulação que, para Jerónimo de Sousa, deveria contemplar o retorno das quotas. O líder comunista diz ainda que não basta a isenção durante três meses do pagamento da segurança social  para aliviar o fardo dos produtores e que é necessário não deixar que a “produção nacional seja substituída” pela dos países do norte da Europa. 

Pedro Pimenta vai assentindo com a cabeça e defende que é necessário também um apelo ao patriotismo e que os políticos tentem convencer os consumidores a preferirem os laticínios nacionais no ato da compra. Pede também um acordo com os revendedores para um "preço justo".

Há vinte anos haveria uns 80 mil produtores em Portugal, agora não chegam a seis mil, explica Pedro. Mas este número poderá ainda encolher mais, esmagado pela compressão dos preços.     

Os custos de produção de cada litro ascendem a 33 cêntimos, mas só o conseguem vender a 26. Por cada litro de leite que as vacas que lhe dão, perdem sete cêntimos. São cinco mil euros de prejuízo por mês. 

Pedro e Manuela dizem que só aguentarão durante mais “seis a oito meses” esta situação. E depois? “Depois, olhe, dedico-me a outra coisa qualquer”, diz ele. E as vacas? “As vacas mando-as abater todas”. Manuela interrompe as palavras do marido. “Ai, Pedro…”. Pedro oferece um sorriso leve: “A minha esposa não gosta de ouvir isto”. Manuela arranca de si um sorriso pesado e diz que as vacas são uma “paixão” e não se imagina a fazer outra coisa. 


Têm duas filhas de oito e onze anos e um rapaz de 14. Criaram-nos com o que o leite lhes deu. Mas já não acreditam que lhes possa dar muito mais. O embargo russo, a quebra de compras da China, os grandes grupos do norte da Europa, o excesso de produção, o fim das quotas leiteiras... São as carruagens de um longo comboio que lhes atropela os sonhos. 

“Este terreno foi uma prenda do meu pai quando acabei o curso na Escala Superior Agrária”, diz ele. E os olhos brilham-lhe: “Tinha mato e silvas e depois tive que limpá-lo, fazer o projeto, investir e estou aqui”. 


Investiu com a Manuela, que conheceu enquanto estudavam, “mais de meio milhão de euros” num negócio que não é fácil de converter noutro qualquer, “como se fossem alfaces”.

Apesar das dificuldades, garantem que vão aguentar o máximo possível e esperar que o “dilúvio de leite” que afoga os produtores abrande, para que as silvas e o mato não voltem a tomar conta desta prenda de final de curso.

Mas entre a esperança que alimentam e a angústia que os consome ele diz que hoje não voltaria a investir neste ramo: “Hoje quem se instala como produtor de leite em Portugal é suicida”, Já ela, mais “sentimental” confessa: “Se tiver de deixar de produzir leite, morre um bocadinho de mim”.