O presidente do PS acusou esta quarta-feira o Presidente da República de humilhar o povo grego ao proferir declarações que revelam pouco sentido de Estado, e ao mesmo tempo de agir como «um delegado eleitoral» do PSD.

«São declarações que procuram humilhar - por contrapartida de um comportamento do Governo português que o Presidente da República procura todos os dias elogiar - humilhar o povo grego e o Governo grego», afirmou o presidente do PS, Carlos César, numa declaração aos jornalistas na sede do partido, em Lisboa, numa reação aos comentários feitos esta manhã pelo Presidente da República sobre a situação grega.

À margem do X Congresso Nacional do Milho, o chefe de Estado Aníbal Cavaco Silva lembrou a solidariedade portuguesa para com a Grécia, que já representou a saída de muitos milhões de euros da «bolsa dos contribuintes portugueses» e fez votos para um entendimento daquele país com a Europa. O Presidente da República fez ainda um comentário sobre a antecipação do reembolso do Fundo Monetário Europeu do empréstimo concedido no âmbito do acordo com a troika, considerando que representou «um ganho para Portugal».

Cavaco Silva considerou ainda que:

«Cada um não pode fazer o que bem entende», considerou , alertando que «cada País não pode fazer o que quer porque pode prejudicar os outros». «Somos solidários, mas temos de ser responsáveis», vincou. 


Lamentando que Cavaco Silva em todas as suas declarações públicas insista em colocar-se como «um delegado eleitoral do partido maioritário do Governo», o presidente socialista criticou a associação desta conduta «a um ataque» que procura «humilhar e desconsiderar países parceiros e amigos e os respetivos Governos».

«Dizer, como diz o senhor Presidente da República, que os portugueses devem ter consciência dos milhões com que estão a contribuir para o povo grego é esquecer que, se as autoridades dos países europeus na sua generalidade tivessem a mesma falta de sentido de Estado, poderiam dizer aos seus concidadãos o mesmo: «os milhões com que a generalidade dos contribuintes e dos países europeus estiveram e estão a contribuir para Portugal», sustentou.


Por isso, continuou, a declaração de Cavaco Silva é «injusta no plano europeu, desadequada no plano institucional e não corresponde à verdade" na avaliação que se tem de fazer do ponto de vista do interesse geral europeu».

«Uma humilhação e uma rutura com a Grécia teria consequências muito graves no plano económico, no plano financeiro, no plano monetário, no plano geopolítico», acrescentou.


 Já a porta-voz do Bloco de Esquerda, Catarina Martins, acusou hoje o Presidente da República, Cavaco Silva, de ter um discurso perigoso e errado, ao alinhar com os populismos dos «egoísmos nacionais» acerca da Grécia.

«O Bloco de Esquerda considera que estas declarações são perigosas e são erradas. São declarações perigosas porque seguem os alinhamentos populistas dos egoísmos nacionais», afirmou Catarina Martins.


A porta-voz do Bloco argumentou que, com o que disse hoje sobre a Grécia, Cavaco Silva esquece «tudo o que alguma vez disse sobre o projeto europeu e tem o discurso alinhado com quem na Europa quer alinhar culpas entre povos, que tem prejudicado todo o projeto europeu" e Portugal.

«É um discurso errado porque Cavaco Silva parece querer esconder que o empréstimo feito à Grécia é exatamente no mesmo mecanismo que permitiu que outros países pudessem emprestar bem mais dinheiro a Portugal», argumentou.

Para a porta-voz bloquista é também errado porque «parece querer esconder a dimensão do empréstimo, que é relativamente pequeno», ilustrando a comparação com o BPN.

«O desvario cavaquista no BPN custou aos bolsos dos portugueses quatro vezes mais do que o empréstimo que Portugal fez à Grécia», apontou.


Catarina Martins sublinhou que «não deixa de ser revelador que, numa altura em que se discute uma alternativa à austeridade na Europa, se quebre o verniz da direita, e que passe a alinhar um discurso que nem Angela Merkel teve tão violento contra os povos do sul da Europa e a periferia da zona euro».

 O líder parlamentar do PCP considerou  que o Presidente da República tem atuado como porta-voz da maioria e da União Europeia, ao comentar as declarações de Cavaco Silva sobre as negociações da Grécia em Bruxelas.

«O Presidente da República coloca-se numa posição de porta-voz de PSD e CDS e que, sendo de alinhamento com a União Europeia e todos aqueles que têm vindo a impor a Portugal este caminho de afundamento e agravamento das desigualdades e da pobreza, é uma posição contrária ao interesse nacional, que tem a obrigação de defender», afirmou João Oliveira, nos passos perdidos do parlamento.


Cavaco Silva lembrara a solidariedade portuguesa para com a Grécia, que já representou a saída de muitos milhões de euros da «bolsa dos contribuintes portugueses» e fez votos para um entendimento daquele país com a Europa, notando que, nas últimas semanas, «o Governo grego já aprendeu bastante sobre o funcionamento da União Económica e Monetária» e tem vindo a corrigir as suas posições.

«Era preciso que se colocasse do lado da defesa dos interesses nacionais e das soluções dos problemas - a renegociação da dívida, a recuperação da produção nacional, a valorização do trabalho e dos trabalhadores», desejou ainda o deputado comunista.