O ex-Presidente da República Cavaco Silva defendeu esta quarta-feira que, na zona euro, "a realidade acaba sempre por derrotar a ideologia" e os que, nos governos, querem realizar a revolução socialista "acabam por perder o pio ou fingem que piam".

Numa aula na Universidade de Verão do PSD, Cavaco Silva afirmou que hoje "é corrente apresentarem-se três casos" de países onde a realidade tirou o tapete à ideologia, enumerando França e Grécia mas sem se referir explicitamente ao caso de Portugal.

Os governos dos países da zona euro, ao chegarem ao poder, podem começar com alguns devaneios revolucionários, mas acabam por perceber que a realidade tem uma tal força que, ou através do aumento de impostos indiretos que anestesiam os cidadãos, cortes nas despesas públicas de investimento, medidas pontuais extraordinárias e cativações das despesas correntes e consequente deterioração serviços públicos ou contabilidade criativa, acabam sempre por conformar-se com as regras europeias de disciplina orçamental."

Para o ex-chefe de Estado, esta projeção da realidade "tem uma tal força contra a retórica dos que, no governo, querem realizar a revolução socialista, que eles acabam por perder o pio ou fingem apenas que piam, mas são pios que não têm qualquer realidade e refletem meras jogadas partidárias".

Aqueles que ainda piam, fingem que piam mas não atribuam a esses pios qualquer credibilidade porque não são mais do que jogadas partidárias."

Depois destas declarações, o PS, partido do Governo, acusou Cavaco Silva de falta de sentido de Estado e lamentou que quando estava em Belém não tivesse "piado mais" na defesa dos portugueses.

Cavaco foi recebido pelo presidente do PSD, Pedro Passos Coelho, que se deslocou a Castelo de Vide de propósito para assistir à aula do ex-Presidente a República e antigo primeiro-ministro.

À chegada à Universidade de Verão do PSD, Cavaco Silva disse que veio diretamente de Albufeira, tendo-se levantado às 06:00 para marcar presença nesta iniciativa de formação de jovens quadros.

Alerta para as "fake news"

Na aula, o antigo líder do PSD falou das chamadas 'fake news' (notícias falsas), dizendo que "não existem apenas na América do sr. Trump mas também na generalidade dos países europeus e em Portugal".

Ainda sobre as sanções, Cavaco Silva disse que sempre esteve "absolutamente convencido" de que nem Portugal nem Espanha seriam multados e considerou que, entre "as centenas de notícias e artigos" que foram publicados sobre o assunto no país, "tem de haver muitas 'fake news'".

Além das 'fake news', Cavaco Silva considerou que circula igualmente muita "informação efémera e pouco séria", dando como exemplos notícias, após as eleições de François Hollande em França e Alexis Tsipras na Grécia, de que as regras europeias sobre a consolidação orçamental viriam a ser suavizadas.

O governo de Hollande, depois de alguns devaneios ideológicos, não teve outro remédio se não curvar-se perante a realidade e corrigir a política orçamental da França. O primeiro-ministro da Grécia, o presidente da Syriza, o sr. Alex Tsipras, depois de uma certa bazófia inicial, correu com o seu ministro das Finanças, pôs a ideologia na gaveta e aceitou negociar um terceiro resgate que impunha austeridade ainda mais dura."

Recentemente, Tsipras admitiu numa entrevista que nunca equacionou a saída da Grécia do euro, questionando "para onde" iria o país se deixasse o espaço da moeda única.

Se perguntassem aos partidos da coligação que defendem a saída de Portugal do euro para onde iria Portugal se saísse dessa galáxia, talvez respondessem para a galáxia onde se encontra agora a Venezuela", afirmou Cavaco.

Em matéria económica, o antigo ministro das Finanças e primeiro-ministro considerou que o Estado português "não é só indisciplinado mas também demasiado gordo".

Se menos recursos fossem retirados aos privados através dos impostos, o nosso nível de desenvolvimento seria maior", defendeu, acrescentando que o sistema fiscal "perdeu lógica e coerência" e, à exceção do acordo para o IRC feito no passado, as mudanças têm sido feitas sem qualquer estudo prévio.

O exemplo de Macron

Cavaco Silva criticou a "verborreia frenética" da maioria dos políticos europeus, elogiando a exceção de Macron, e pediu aos jovens "força e coragem para combaterem o regresso da censura".

O ex-Presidente da República dedicou uma parte da sua intervenção de 50 minutos a elogiar a estratégia comunicacional do atual chefe de Estado francês, Emmanuel Macron, dizendo ver semelhanças com a que adotou quando exerceu cargos de poder e que passa por recusar qualquer "promiscuidade com jornalistas".

Em França, não passa pela cabeça de ninguém que Macron telefone a um jornalista para lhe passar uma notícia ou uma informação."

Cavaco destacou que Macron entende que "a palavra presidencial deve ser escassa", uma estratégia que "contrasta com a verborreia frenética da maioria dos políticos europeus dos nossos dias, ainda que não digam nada de relevante".

Eu continuo a pensar que a independência em relação aos jornalistas é um principio básico. A atitude que melhor serve o interesse do país e também o interesse pessoal dos políticos é o respeito pelos profissionais de comunicação social, mas mantendo distanciamento e não negociando o que publicam ou deixam de publicar."

O tema da censura foi introduzido por Cavaco Silva na parte final da sua intervenção e quando falava das eleições autárquicas que se realizam a 1 de outubro, onde pediu inspiração para os candidatos do PSD.

Apesar das coisas estranhas que têm acontecido no nosso país, apesar de vozes credíveis afirmarem que censura está de volta, estou convencido que portugueses ainda valorizam a verdade, a honestidade, a competência, o trabalho sério, a dedicação a servirem as populações."