O Presidente da República, Cavaco Silva, comentou, esta segunda-feira, os desenvolvimentos da OPA sobre a Portugal Telecom (PT), e considera que existiram falhas por parte de gestores e acionistas da PT que conduziram a empresa à sua atual situação.

«Penso que é legítimo, apesar de se tratar de uma empresa privada e brasileira, fazer pelo menos uma pergunta: O que é que andaram a fazer os acionistas e os gestores desta empresa? É uma pergunta que os portugueses têm direito de colocar», disse Cavaco Silva, durante uma visita ao Alentejo.

Considerando, no entanto, que um Presidente da República não «deve comentar intenções de negócios privados que foram anunciados há poucas horas», Cavaco Silva, disse que o melhor que pode acontecer a Portugal é «que se evite o desmembramento da empresa».

Cavaco Silva considera que a transferência de grandes empresas portuguesas para o estrangeiro «tem normalmente um custo para o país», e lembrou que já nos seus tempos de professor tinha alertado para os desiquilíbrios das contas externas, que um dia custariam ativos nacionais.

«Quando um país compra a um estrangeiro muito mais do que aquilo que lhe vende, a diferença tem de ser financiada, ou por empréstimos ou pela entrega de ativos que nós possuímos. No passado nós acumulámos grandes desiquilíbrios externos, e eu sempre disse nessa altura, antes de ser PR, que um dia iríamos assistir, por causa desses défices externos que chegaram a atingir 10% da produção nacional, à transferência de ativos nacionais para o estrangeiro», afirmou o Presidente da República.

Recorde-se que Cavaco Silva condecorou, a 10 de junho, na Guarda, o então presidente da PT Portugal, Zeinal Bava, com a Grã-Cruz da Ordem do Mérito Empresarial na Classe do Mérito Comercial e o ex-presidente executivo da PT (até 2006), Miguel Horta e Costa, com a Grã-Cruz da Ordem do Infante D. Henrique.


«Temos uma ligação afetiva muito forte com Timor»

Durante a sua visita ao Alentejo, Cavaco Silva comentou, também, o incidente diplomático com Timor, na sequência da expulsão dos magistrados portugueses, e apesar de lamentar toda a situação garante que Portugal continua a ter uma ligação muito forte com Timor-Leste.

«Aquilo que aconteceu foi uma atitude desproporcionada das autoridades timorenses, e lamento profundamente que se tenha posto em causa a competência dos magistrados portugueses. Penso que isso só pode dever-se a uma falta de experiência de um Estado novo em atuação no campo diplomático. O Governo português tem vindo a acompanhar com muita atenção esse assunto, informando sempre o Presidente da República, mas também tendo em atenção que temos uma ligação afetiva muito forte com Timor, lutámos muito pela independência de Timor. Nenhum outro país no mundo inteiro lutou tanto pela independência de Timor-Leste e isso nunca pode ser esquecido», disse Cavaco Silva.

O Presidente da República garante que apesar da reavaliação da cooperação na área judiciária, Portugal não deve suspender outras ligações com o país, até porque Timor está neste momento à frente da Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP).

«Apesar [do incidente] devemos continuar a ajudar aquele jovem Estado, que tem apenas 12 anos de existência e não podemos suspender em todos os domínios a nossa cooperação com Timor, até porque Timor exerce a presidência da CPLP, [mas] compreende-se que no caso da cooperação judiciária é preciso reexaminá-la», continuou o Presidente da República.


Legionella: «Não posso deixar de lamentar as mortes»

Cavaco Silva não quis deixar de comentar, igualmente, o grande assunto da atualidade, o surto de Legionella, dirigiu uma mensagem de solidariedade às famílias das vítimas mortais da doença e pediu à população que confie nas autoridades de saúde encarregues de resolver o problema.

« Não posso deixar de lamentar as mortes que ocorreram e dirigir uma palavra de solidariedade às famílias. Nesta matéria nós temos de confiar que as nossas autoridades e todos os que trabalham na área sanitária estão a dar o seu melhor para conseguir apoiar e tratar aqueles que estão afetados», disse.


Eleições: «É bom fazerem o trabalho de casa de vez em quando»

Questionado sobre a polémica em torno de uma possível antecipação das próximas eleições legislativas, Cavaco Silva reagiu às críticas da oposição do Governo ( PS, PCP, BE), e recomendou a «alguns políticos», que estudem as leis, antes de falarem.

«Há momentos em que é importante lembrar alguns políticos que quando falam de certos assuntos devem estudá-los primeiro. Devem estudar o que diz a constituição, o que dizem as leis, como foram aprovadas... E notei por algumas declarações que foram feitas por alguns políticos, até nem sabiam [que] a lei que tinha aprovado, em 1999, a data das eleições, tinha sido imposta pelo PS, o PCP e pelo partido «Os Verdes», contra a opinião do PSD e CDS-PP. É bom fazerem o trabalho de casa de vez em quando», disse.

O Presidente continuou, e está certo que alguns políticos não conhecem o artigo 133º da Constituição.

«Parece-me que há até alguns  políticos que não conhecem o artigo 133º da constituição, que diz que o Presidente da República tem que fixar a data das eleições de acordo com a lei eleitoral. Está escrito. E fiquei com a ideia que alguns políticos não tinham sequer lido esse artigo. Convido-os a fazer o trabalho de casa», disse Cavaco Silva.