O Presidente da República, Aníbal Cavaco Silva, afirmou esta sexta-feira que se vive um tempo de incerteza e que há um modelo político, económico e social a defender, que é aquele que vigorou nas últimas décadas.

Na sua última mensagem de Ano Novo como chefe de Estado, Cavaco Silva considerou que a sociedade civil portuguesa "tem por adquiridos os princípios da liberdade e da democracia, identifica-se com os valores civilizacionais do Ocidente e com o modelo de desenvolvimento económico e social da Europa".

Mais à frente, o Presidente da República acrescentou: "Vivemos um tempo de incerteza. Temos o dever de defender o modelo político, económico e social que, ao longo de décadas, nos trouxe paz, desenvolvimento e justiça".

"Temos de renovar o contrato de confiança entre todos os portugueses, aquilo que constitui a maior razão para acreditarmos num futuro melhor, para nós e para os nossos filhos. Com esperança no futuro, desejo aos portugueses - a todos os portugueses - um feliz Ano Novo", concluiu.

Nesta mensagem, Cavaco Silva deixou uma nota de apelo ao combate às desigualdades e à pobreza, e outra a favor do acolhimento dos imigrantes que querem integrar-se em Portugal.

"É fundamental combater as desigualdades e as situações de pobreza e exclusão social, que afetam ainda um grande número de cidadãos: os idosos mais carenciados, os desempregados ou empregados precários, os jovens qualificados que não encontram no seu país o reconhecimento que merecem."


Sobre as migrações, o chefe de Estado referiu que, "ao longo da história, muitos milhares de portugueses partiram para o estrangeiro em busca de melhores condições de vida" e que, "há quarenta anos, Portugal acolheu muitos milhares de portugueses vindos das antigas colónias de África".

"Temos, assim, o dever de acolher aqueles que nos procuram para se integrarem na nossa sociedade, partilhando connosco os valores e princípios de que nunca abdicaremos: a democracia e a liberdade, a tolerância e a dignidade da pessoa humana, o respeito pela nossa cultura e pelas nossas tradições", defendeu.

Segundo Cavaco Silva, "numa Europa marcada por tensões e conflitos, onde em várias paragens emergem pulsões extremistas e xenófobas, Portugal deve afirmar a sua identidade universalista, o espírito com que, há mais de 500 anos, deu novos mundos ao mundo".

Logo no início da sua mensagem, o antigo primeiro-ministro e presidente do PSD disse que o Ano Novo "é sempre um tempo de incerteza, mas também de esperança", acrescentando: "Olhamos o futuro sem saber o que este nos trará".

Depois, Cavaco Silva reforçou esta ideia de dúvida em relação ao que o futuro trará, dizendo que os portugueses no seu conjunto são o "grande motivo de esperança num tempo de incerteza".


"O país real que muitos agentes políticos desconhecem"
 

A dois meses do fim do mandato, Cavaco Silva aproveitou esta mensagem para falar dos seus dez anos como Presidente da República.

Elogiou "o país real" que disse ter conhecido de perto, mas que considerou ser desconhecido por muitos políticos e subvalorizado.

Recordando os roteiros que fez pelo país nos seus dois mandatos, disse ter encontrado uma sociedade civil portuguesa dinâmica em tempos difíceis e deixou o seu "mais profundo agradecimento" aos "portugueses que hoje estão a construir Portugal", na ciência, nas empresas e nas artes.

"Este não é um país imaginário. Este é o Portugal do presente, que encontramos bem vivo de Norte a Sul, no litoral e no interior, nas regiões insulares, nas comunidades da diáspora. Este é o país real, o país verdadeiro, que muitos agentes políticos desconhecem, que a comunicação social tantas vezes ignora e que conheci de perto durante os meus mandatos. Os portugueses que estão a fazer Portugal nem sempre são reconhecidos ou valorizados como merecem."

Segundo o Presidente da República, todos os portugueses com que contactou estão unidos por um "profundo amor a Portugal", por uma "ambição patriótica" que permitirá construir "um país melhor, solidário e com mais justiça social", precisando para isso da colaboração do Estado.

"Os portugueses que estão a fazer Portugal não exigem o impossível nem pedem muito ao seu país. Pedem apenas que o Estado crie condições para que possam desenvolver o seu trabalho e, depois, que os poderes públicos não estabeleçam entraves à sua atividade, desde a criação de emprego e riqueza até à defesa do património e do ambiente, passando pela inovação social e tecnológica."


O chefe de Estado recordou que o seu primeiro roteiro, em 2006, foi dedicado à inclusão social, referiu que procurou "acima de tudo, valorizar os bons exemplos" e que percorreu "o país inteiro", esteve "com as comunidades da diáspora" e contactou com "milhares de portugueses".

"São esses portugueses - todos vós, todos os portugueses - o nosso grande motivo de esperança num tempo de incerteza", acrescentou.

"Jovens cientistas e investigadores de excelência, empreendedores económicos, sociais e culturais, dirigentes associativos, instituições de solidariedade e voluntários, artistas e criativos talentosos, é este imenso Portugal que se afirma no presente e se projeta no futuro de uma forma extraordinária", reforçou.

Aníbal Cavaco Silva, 76 anos, termina o segundo mandato como Presidente da República a 9 de março, quando será substituído pelo vencedor das eleições presidenciais, que estão marcadas para 24 de janeiro, com eventual segunda volta a 14 de fevereiro.