Nos últimos anos, cada «aniversário» do mandato de Presidente da República tem sido marcado pela divulgação de «reflexões» de Cavaco Silva, algumas mais retrospetivas, outras a antecipar o futuro, além de promessas para os anos seguintes.

O Presidente da República já anunciou que esta segunda-feira, dia em que completa o quarto ano do seu segundo mandato, divulgará o prefácio do «Roteiros IX», no qual fará uma reflexão sobre a diplomacia presidencial

Os «Roteiros», publicações que reúnem as principais intervenções do chefe de Estado no ano anterior, têm sido publicados desde 2007 no dia em que se assinala cada aniversário da tomada de posse de Cavaco Silva como Presidente da República, a 9 de março.

Contudo, só em 2012, no primeiro aniversário do segundo mandato no Palácio de Belém, os prefácios começaram a ter impacto mediático, com um texto particularmente violento para o antigo primeiro-ministro José Sócrates, a quem deixou acusações de «uma falta de lealdade institucional que ficará registada na história da nossa democracia».



No prefácio do «Roteiros VI», o chefe de Estado recuou até outubro de 2009, quando tomou posse o Governo minoritário socialista, terminando na realização das eleições legislativas antecipadas de junho de 2011, depois da demissão do então primeiro-ministro, na sequência do chumbo do chamado PEC IV.

Recuperando críticas ao executivo de José Sócrates, Cavaco Silva fez referência direta ao «anúncio inesperado» do chamado PEC IV, apenas dois dias depois da sua tomada de posse para o segundo mandato em Belém, sem que tenha tido conhecimento prévio das medidas de austeridade previstas, considerando que se tratou de «uma falta de lealdade institucional que ficará registada na história da nossa democracia».

No texto de 2012, Cavaco Silva explicou ainda a razão porque decidiu avançar com a convocação de eleições legislativas antecipadas, considerando que «insistir na tentativa de encontrar uma solução governativa sem convocar eleições teria sido uma inútil perda de tempo, que prejudicaria o país em face do crescente agravamento da situação financeira».

Há três anos, o chefe de Estado deixou ainda uma promessa para o seu segundo mandato em Belém, dizendo que será «o Presidente do inconformismo e da esperança» e dando garantias de que os portugueses poderiam contar consigo.

No ano seguinte, em 2013, quando se assinalou o segundo aniversário do segundo mandato, o Presidente colocou o enfoque na importância de um consenso político alargado para executar o programa de ajustamento, retomando uma mensagem que tem sido uma constante nas suas intervenções.



No texto publicado quatro meses antes da crise que acabaria por abalar no verão a própria coligação PSD/CDS-PP que suporta o Governo liderado por Pedro Passos Coelho, o chefe de Estado deixou também alertas sobre a necessidade de «solidez e consistência» na aliança entre sociais-democratas e democratas-cristãos e sobre os benefícios de um consenso político alargado envolvendo as forças partidárias comprometidas com o programa de assistência financeira.

Pois, sublinhou na altura, uma crise política grave na fase crítica de execução do programa de assistência financeira colocaria «o país numa situação ainda mais penosa».

Cavaco Silva, que ao longo dos dois mandatos em Belém tem sido alvo de críticas por alguns silêncios e falta de atuação em momentos chave da vida política, deixou igualmente nesse ano um «guião» sobre aquela que deve ser a atuação do Presidente da República em tempos de crise, sustentando que o chefe de Estado não se deve deixar influenciar pelo ruído mediático ou pressões, «arrastar por pulsões emocionais» ou afetar pelas tensões.

No ano passado, a pouco mais de dois meses da conclusão do programa de assistência financeira, o Presidente da República centrou a mensagem no pós-troika, avisando que seria «uma ilusão» pensar que as exigências de rigor orçamental vão desaparecer, pois pelo menos até 2035 Portugal continuará sujeito a supervisão.

A mais de um ano as próximas eleições legislativas - que deverão realizar-se no outono deste ano - Cavaco Silva retomou ainda o tema dos compromissos, insistindo na necessidade de um entendimento entre PSD/PS/CDS-PP até ao final da próxima legislatura (2015-2019), que inclua um compromisso de estabilidade política e de governabilidade.

As viagens do Presidente

Ao longo dos últimos nove anos na Presidência da República, Cavaco Silva já realizou 23 viagens de Estado ou oficiais, pelos cinco continentes, a que somou mais algumas dezenas de deslocações ao estrangeiro.

Dos chefes de Estado eleitos desde o 25 de Abril, Cavaco Silva foi o que realizou menos viagens de Estado ou oficiais. No total dos dois mandatos, Soares foi o «campeão», totalizando 48 ao longo dos 10 anos em Belém, enquanto Jorge Sampaio se ficou pelas 45 e Ramalho Eanes somou em dez anos 28 viagens oficiais ou de Estado.

A estreia de Cavaco Silva em viagens de Estado ou oficiais enquanto Presidente da República aconteceu seis meses depois de ter tomado posse, a 09 de março de 2006, e levou a comitiva presidencial a Espanha.

Quatro meses depois, em janeiro de 2007, Cavaco Silva deslocou-se pela primeira vez enquanto Presidente da República ao continente asiático, para uma visita de Estado de uma semana à Índia, uma das mais longas deslocações até agora realizada. Ao todo foram oito dias, entre 10 e 17 de janeiro, com passagem por Nova Delhi, Goa, Mumbai e Bengalore.



No final desse ano, em novembro, o Presidente da República realizou ainda uma visita oficial ao Chile, aproveitando uma deslocação à Cimeira Ibero-Americana.

Em 2008, o Presidente da República deslocou-se à Jordânia, entre 16 e 18 de fevereiro, e um mês depois esteve em Moçambique, uma das mais emotivas visitas dos seus mandato, já que marcou o regresso ao país onde viveu na juventude com a mulher, logo após o casamento, quando esteve a cumprir o serviço militar.

Em setembro, o chefe de Estado realizou ainda outras duas visitas de Estado, à Polónia e à Eslováquia. Em março e maio de 2009, Cavaco Silva efetuou outras duas viagens de Estado, à Alemanha e à Turquia, respetivamente, e em julho foi em viagem oficial à Áustria.

No último ano do primeiro mandato em Belém, ainda antes das eleições do início de 2011 onde foi reeleito para a chefia do Estado, Cavaco Silva realizou em abril uma visita de Estado à República Checa e em julho deslocou-se a Cabo Verde e Angola.

Ao todo, ao longo do primeiro mandato, Cavaco Silva realizou, assim, 14 viagens oficiais ou de Estado.



Já no segundo mandato, a primeira deslocação oficial do segundo mandato aconteceu em novembro de 2011, aos Estados Unidos da América, com passagem por Nova Iorque, Washington e por San José, na Califórnia, a cerca de meia centena de quilómetros de São Francisco.

Em maio de 2012, o Presidente da República partiu para a mais longa viagem desde que chegou a Belém, num regresso ao continente asiático, onde já tinha estado em 2007. Ao longo de 10 dias, Cavaco Silva passou por quatro países: Timor-Leste, Indonésia, Austrália e Singapura.

A viagem seguinte só aconteceu um ano depois, numa deslocação que incluiu uma visita de Estado à Colômbia e uma viagem oficial ao Peru. Em 2013, o chefe de Estado realizou apenas mais uma visita de Estado à Suécia, no início do mês de outubro.

No ano passado, o continente asiático voltou a ser duplamente visitado pelo Presidente da República, que em maio realizou uma visita de Estado à China, regressando em julho para uma viagem oficial à Coreia. Quase no final de 2014, Cavaco Silva realizou ainda uma visita oficial aos Emirados Árabes Unidos.

Além destas visitas de Estado ou oficiais, o Presidente da República deslocou-se para fora do país meia centena de vezes, por motivos tão diversos como a participação em cimeiras Ibero-Americanas e na Assembleia-Geral das Nações Unidas, a tomada de posse de homólogos estrangeiros ou reuniões do «Grupo de Arraiolos».

As cerimónias de início do pontificado do papa Francisco, as exéquias oficiais em memória de Nelson Mandela, os jogos olímpicos de Londres 2012 ou a Cimeira Mundial dos Oceanos, em São Francisco, nos Estados Unidos da América, foram outros motivos para Cavaco Silva sair do país.