O Bloco de Esquerda solicitou, esta quinta-feira, a presença do Presidente da República na comissão de inquérito ao Banco Espírito Santo e ao Grupo Espírito Santo. Os bloquistas querem ouvir Cavaco Silva, depois de o ex-presidente do BES, Ricardo Salgado, ter enviado uma carta à comissão, a dar conta de que teve duas reuniões com o chefe de Estado, ainda antes do colapso do Grupo Espírito Santo e, por arrasto, do banco que dele fazia parte.

O objetivo é que Cavaco Silva responda a quatro questões, «quer por meio de presença formal», «quer de forma escrita», como é «prorrogativa dos titulares de cargos públicos»:

- Qual o teor das reuniões efetuadas com o Dr. Ricardo Salgado e qual a natureza da presença do Sr. Presidente da República? 

- Quais os contornos da discussão relativa à garantia soberana concedida pelo Estado Angolano ao BESA e se, acerca da mesma ou do seu cancelamento, foram efetuadas diligências por parte do Sr. Presidente da República?

- Que tipo de apoio foi solicitado ao Sr. Presidente da República e quais as diligências efetuadas nesse âmbito?

- Que outros contactos existiram (se existiram) no sentido de acompanhar a situação financeira do GES/BES, quer com membros do grupo económico como do Governo e reguladores?»


O requerimento do Bloco de Esquerda terá de ser aprovado em reunião de coordenadores. Até agora, nenhum pedido de audição foi recusado pelos deputados de todos os partidos.

Quando foi confrontado com o encontro com Ricardo Salgado (que agora se sabe terem sido dois), o Presidente da República recusou revelar o seu conteúdo.

«Como tenho dito várias vezes, as matérias tratadas nas audiências com o Presidente da República são reservadas e nunca revelei aquilo que se passa nas reuniões, quer com políticos, quer com sindicalistas, quer com cientistas, quer com empresários. Fazem parte da informação que compete ao Presidente recolher sobre a situação do país», disse, a 9 de dezembro.


Na altura, Cavaco Silva contestou ainda que tenha influenciado a compra de ações do BES, referindo que falou um mês depois do aumento de capital do banco.  

O Bloco de Esquerda justifica o requerimento também com as declarações públicas de Cavaco Silva sobre o assunto, citando as declarações do chefe de Estado, do dia 21 de julho de 2014, 10 dias antes do colapso do BES, quando disse que «o Banco de Portugal tem sido perentório e categórico a afirmar que os portugueses podem confiar no BES, dado que as folgas de capital são mais do que suficientes para cumprir a exposição que o banco tem à parte não financeira, mesmo na situação mais adversa (...) de acordo com o Banco de Portugal, considero que a atuação do banco e do governador tem sido muito correta».

O BE entende que importa esclarecer «a profundidade do conhecimento dos factos ao dispor das várias entidades que, de forma inadvertida ou não, deram publicamente os eu voto de confiança ao BES». 

Também o PCP quer que Cavaco Silva explique à comissão de inquérito à gestão do BES e do Grupo Espírito Santo (GES) o teor das reuniões tidas com Ricardo Salgado e reveladas esta quinta-feira e pediu ainda que Paulo Portas também seja ouvido.
 

«Há informações que devem ser fornecidas à comissão de inquérito», diz o PCP.

No entanto, o  PCP quer «o depoimento [de Cavaco Silva] por escrito a questões que venham a ser construídas por cada grupo parlamentar» não pedindo o depoimento presencial como o BE.

PS também quer ouvir Cavaco

O Partido Socialista juntou-se ao PCP e Bloco de Esquerda, reclamando que o Presidente da República responda a questões dos deputados da comissão de inquérito BES/GES sobre as reuniões tidas em 2014 com Ricardo Salgado.

«Precisamos de saber que respostas foram dadas e se os responsáveis políticos tinham consciência do impacto que teria a paragem do financiamento do Grupo Espírito Santo (GES) no próprio BES», declarou o deputado socialista Pedro Nuno Santos, coordenador do partido na comissão de inquérito.

«Há informações que devem ser fornecidas à comissão de inquérito», diz o PCP, ao passo que o BE diz que o esclarecimento de Cavaco é «indispensável» para que a comissão de inquérito «possa apurar toda a verdade sobre os factos relevantes».

PSD quer saber «fundamentos» da oposição

O PSD disse esperar conhecer os requerimentos da oposição para que o Presidente da República preste esclarecimentos na comissão de inquérito BES/GES, mas lembra que até ver não houve um único pedido de documentação ou audição chumbado.

Quando os textos forem apresentados «veremos quais são os seus fundamentos», sublinhou o deputado coordenador do PSD na comissão de inquérito, Carlos Abreu Amorim.

«Nesta comissão de inquérito ainda não houve um único requerimento quer de documentação quer de audições que tenha sido chumbado, espero que esse espírito de consenso continue», sinalizou Carlos Abreu Amorim.

Por sua vez, o CDS-PP acusou os partidos da oposição de fazerem um «número» em torno da carta de Ricardo Salgado.

Cecília Meireles disse esta quinta-feira que houve um «número» da oposição que consiste em «pedidos de audições, para ouvir vários membros do Governo».

«Do ponto de vista do grosso (...) traz muito poucas novidades» a carta de Salgado hoje enviada à comissão parlamentar de inquérito, acrescentou a centrista.

Na carta que Salgado enviou esta quinta-feira para a comissão de inquérito, revela ainda que  se encontrou, também, com o vice-primeiro-ministro Paulo Portas . Quanto aos restantes contactos políticos que constam desta carta agora enviada ao Parlamento, Ricardo Salgado   já tinha revelado  que se encontrou com Pedro Passos Coelho, Maria Luís Albuquerque, Carlos Moedas e até Durão Barroso.