A porta-voz do Bloco de Esquerda, Catarina Martins, considerou, esta quinta-feira, que o Presidente da República agiu “como o líder de uma seita” ao indigitar Pedro Passos Coelho para o lugar de primeiro-ministro e excluir uma solução liderada pelo PS e apoiada pelo Bloco de Esquerda e PCP.

Em entrevista no "Jornal das 8" e 21ª Hora da TVI24, Catarina Martins disse que Cavaco Silva, ao apelar à responsabilidade dos deputados da Assembleia da República depois da nomeação de Passos Coelho, está a tentar criar "instabilidade" e a fazer "chantagem" com os deputados para que o seu partido fique no poder.
 

“O sr. Presidente da República está a comportar-se como um líder de seita, a tentar criar instabilidade e a fazer chantagens. É completamente inaceitável que assim seja. A solução formal (indigitar Passos Coelho) tem todo o cabimento, e não a contesto. Não é aceitável [é] que um Presidente da República venha dizer que não aceita soluções que sejam democraticamente sufragadas no país e no parlamento. (…) O sr. Presidente da República não pode pôr e dispor. Tem de ouvir o que é a vontade popular nas eleições e tem de respeitar o que for o compromisso parlamentar que se encontrar para uma solução de governo estável.”


Para a porta-voz do BE, Cavaco Silva usou o seu papel institucional para fazer algo que “é muito grave em democracia”.

 “O Presidente da República fez hoje algo que é muito grave em democracia, que foi utilizar o seu papel institucional para criar instabilidade e fazer chantagem sobre deputados eleitos livremente. O que o sr. Presidente da República tentou fazer foi condicionar as decisões dos deputados eleitos por voto direto. Isso é inaceitável. O sr. Presidente da República quer obrigar os deputados a aceitarem uma decisão política que não vai ao encontro com aquilo que se comprometeram durante a campanha.”

Catarina Martins salientou que o Bloco de Esquerda tem tanta responsabilidade como outros partidos, pelo que não deve ser excluído de uma solução de Governo, e que a decisão do Presidente da República abre caminho para que Portugal fique sem um Orçamento do Estado.
 

“O discurso quer limitar a liberdade, dizendo que aconteça o que acontecer nas eleições soluções de Governo têm de ser sempre as mesmas, mesmo que as pessoas decidam nas eleições quebrar o ciclo do empobrecimento. (…) O que [Cavaco Silva] disse foi: ‘para segurar o meu partido no poder, prefiro que não haja Orçamento do Estado em Portugal.’”


A porta-voz do Bloco disse compreender que Cavaco Silva tenha indigitado Pedro Passos Coelho, por liderar a coligação mais votada nas eleições, porém salientou que esta é uma decisão que faz o país perder tempo, por ser uma “solução sem caminho”.
 
“O que me choca no discurso do Presidente da República não é a solução formal. O que é inaceitável no discurso é que venha trazer para cima da mesa uma espécie de veto sobre decisões políticas democráticas, como se já estivessem decididos os Governos e as opções que possam existir antes das eleições. (…) Com toda a lealdade institucional, o Bloco de Esquerda comunicou ao Presidente da República que a solução de indigitação de Passo Coelho, sendo uma solução formalmente correta, era uma solução sem caminho. O Governo seria rejeitado, nunca faria um Orçamento e, portanto, era uma perda de tempo”.

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Apesar da indigitação de Passos Coelho para o lugar de primeiro-ministro, Catarina Martins promete “derrubar o Governo de direita” e continuar as negociações com o PS e o PCP para a formação de um Executivo alternativo.

“Em primeiro lugar, manteremos e finalizaremos as negociações com o PS, que envolvem também o PCP, para um solução viável e estável de Governo que quebre o ciclo de empobrecimento. Esse é o nosso compromisso. Em segundo lugar, mantemos o nosso compromisso de derrubar o governo da direita, ou seja, Pedro Passos Coelho bem pode ser indigitado, mas será confrontado com uma moção de rejeição no parlamento e o seu Governo não passará."