A investigação, a tecnologia e a ciência como motores para o desenvolvimento da economia. E a necessidade de o Estado apoiar estas áreas com o investimento adequado, rompendo com uma lógica de precariedade, que é transversal à maioria dos investigadores. Estas foram duas das principais ideias que o Bloco de Esquerda defendeu, esta terça-feira, durante uma visita ao Cetemares, um centro de investigação do Instituto Politécnico de Leiria, em Peniche, cujo trabalho se direciona para a área das Ciências do Mar.

O edíficio é muito recente. Foi inaugurado pelo Presidente da República em julho. Catarina Martins percorreu vários laboratórios, de aspeto novo e moderno. Ao longo do caminho, foi conhecendo os diferentes produtos que dali saem para mercados tão longínquos como, por exemplo, o Japão. Azeite, gin, gelado, pão e tisanas são alguns exemplos. Tudo feito a partir de microalgas. A porta-voz do Bloco mostrou-se curiosa e com vontade de provar estas iguarias inovadoras.

Neste centro, os investigadores criam novos produtos, de origem marinha, desenvolvendo tecnologias de cultivo sustentável. E um dos objetivos passa pela transferência de conhecimentos para as empresas. Daí que haja uma articulação com vários parceiros ao nível empresarial.

Entre as bancadas e os equipamentos de laboratório, a dirigente bloquista ouviu os investigadores. Para conhecer o seu trabalho, mas não só. Catarina Martins ouviu os problemas e as dificuldade que, no fundo, representam as muitas questões de quem opta por seguir uma carreira na área da investigação, em Portugal. 

 
Como André Horta, de 25 anos. O jovem contou à porta-voz do Bloco que se candidatou a quatro bolsas de doutoramento, sem sucesso, e, talvez por isso, não mostrou grandes expetativas em conseguir obter um contrato de trabalho. 

"Já me candidatei a quatro bolsas de doutoramento. [...] Se os doutoramentos não aparecem, contrato de trabalho ainda pior".

 

Para a porta-voz do BE, a lógica utilizada pelo Estado ao nível da investigação tem de mudar. Catarina Martins criticou a "precariedade dos investigadores", que vivem sem acesso "a uma carreira contributiva" ou a "perspetivas de futuro" e lembrou que estes "inovam em áreas essenciais para a economia".

"O investimento em ciência foi feito com base na precariedade dos investigadores. Não vem deste governo, já vem de governos anteriores. Com o PS houve mais investimento em ciência, mas a verdade é que todo o investimento foi feito com base na extrema precariededade dos investiagdores. É preciso romper com esta lógica do abuso sobre os investigadores e sobre as gerações mais novas para que elas possam ter perspetivas de futuro no nosso pais."


A visita do Bloco coincidiu com uma greve de investigadores e professores do ensino superior contra os problemas que enfrentam, como a falta de financiamento. Um protesto que a dirigente bloquista disse "perceber", sublinhando que é preciso dar "contratos de trabalho e salários dignos, que correspondam ao seu trabalho".

"Percebo que os investigadores tenham vindo dizer que hoje era o princípio e o fim do ano letivo porque são condenados a cada vez menos bolsas e por isso temos visto pessoas a sair do país. É preciso dar às pessoas contratos de trabalho e salários dignos que correpondam ao seu trabalho."


A visita, que decorreu durante a tarde desta terça-feira, durou cerca de uma hora. Pelo meio, houve um momento curioso. Os investigadores apresentaram com humor um polvo que integra um dos projetos: "Andamos a treinar este polvo o dia todo para adivinhar os resultados das legislativas", numa alusão ao polvo que adivinhava os resultados do Campeonato do Mundo de Futebol, Depois, questionada por uma jornalista sobre se era mais fácil obter uma resposta do polvo do que de António Costa, Catarina Martins respondeu que "o polvo está em melhor caminho".

"É sempre preciso respostas novas. O polvo está em melhor caminho."