A porta-voz do Bloco de Esquerda (BE) advoga que a Comissão Europeia e o Conselho Europeu não demonstram "vontade de atacar os problemas financeiros graves" dos países, e Portugal deve adotar uma postura "menos expectante" face a estas instituições.

Seguramente não olhamos para a Europa com o otimismo com que olha o Governo", diz Catarina Martins, em entrevista à agência Lusa, na véspera da X Convenção do Bloco.

A porta-voz do BE reconhece a "divergência" do partido face ao atual Governo do PS – viabilizado no parlamento com o apoio do Bloco - no que diz respeito à dívida pública do país e à renegociação que o BE diz ser necessária.

É possível encontrar a curto prazo alguns mecanismos importantes do ponto de vista de proteger o país. Agora, é sabido que a nossa divergência com o Governo é sobre um passo maior que pequenas poupanças que esperamos que sejam possíveis já no próximo Orçamento do Estado", vinca Catarina Martins.

E concretiza: "Consideramos que é precisa uma outra postura, menos expectante em relação à Europa, que possa começar a preparar o país para um confronto eventualmente necessário com instituições europeias sobre esta matéria".

A porta-voz bloquista faz uma ligação entre a dívida pública - a "maior despesa inútil" que o Estado tem - e a necessidade de utilizar fundos para um "aumento significativo do investimento público" que, por sua vez, impulsione o investimento privado e a criação de emprego.

Não vemos a Comissão Europeia nem o Conselho Europeu com vontade de atacar os problemas financeiros graves da Europa. Este não é só um problema português, nós sabemos. A zona euro tem quase 50% de desemprego jovem. O problema é que não podemos continuar a dizer que como é um problema global não fazemos nada no nosso país. Nós temos responsabilidade com o que se passa neste país com o emprego", sustentou Catarina Martins.

A moção conjunta que as principais tendências do BE levam à convenção deste fim de semana sustenta que a dívida pública e a dívida do sistema financeiro permanecem "as maiores ameaças às contas do Estado e constituem os maiores problemas estruturais das contas nacionais" de Portugal.

A X Convenção do Bloco de Esquerda irá realizar-se em Lisboa, no sábado e no domingo, sendo antecedida na sexta-feira à noite por uma sessão internacional com o mote "O tempo dos movimentos na Europa".

O encontro tem a particularidade de ser a primeira Convenção bloquista que se realiza desde que o partido formalizou, com o PS, um acordo parlamentar que foi fundamental para garantir a chegada ao poder no final do ano passado do executivo socialista liderado por António Costa. O mote da X Convenção é "Mais força para vencer".

 

Um Bloco diferente, "maior, com mais gente"

O Bloco de Esquerda chega com "mais responsabilidades" a esta X Convenção e sinaliza que o próximo Orçamento do Estado (OE) terá de ter em conta os pensionistas e o tema do emprego.

Em entrevista à agência Lusa, Catarina Martins sustenta que o Bloco que se apresenta na convenção deste fim de semana "é um Bloco um pouco diferente", não na essência da proposta política mas na sua dimensão.

É claramente um Bloco maior, com mais gente", numa fase de "enormes responsabilidades", por via do acordo parlamentar com o PS que - ao lado de outros acordos dos socialistas com outros partidos à esquerda - viabiliza o atual Governo.

"Temos enormes responsabilidades hoje, maiores, com o que isso tem de bom: significa que o Bloco tem mais capacidade de determinar o que acontece no país”, diz Catarina Martins, reconhecendo que há inevitavelmente "dificuldades" em todo o processo, até porque "o Governo não é do BE, é do PS".

De todo o modo, e após a aprovação do OE deste ano, os bloquistas dizem que há agora um "debate difícil" em torno do documento do próximo ano, lembrando a porta-voz do partido os "três pilares" do acordo firmado com o PS: recuperação de rendimentos, proteção das relações de trabalho e manutenção do estado social com travão às privatizações.

Há uma parte de recuperação de rendimentos que precisa de novas medidas a cada ano que passa", adverte Catarina Martins, que destaca neste ponto os pensionistas.

E realça: "Se no orçamento anterior o que foi feito foi parar os cortes de 600 milhões de euros que a direita já tinha prometido a Bruxelas", a verdade é que "as pessoas foram protegidas de cortes mas não sentiram como é que faziam face à inflação", por isso há que "responder" aos anseios dos portugueses, nomeadamente os pensionistas.

É uma discussão complicada que exige recursos do Estado", reconhece contudo Catarina Martins.

O BE implementou com o PS um conjunto de grupos de trabalho que abordam várias áreas - da dívida ao combate à precariedade, passando pela habitação ou reforma fiscal -, e várias medidas a nível de legislação laboral, direito à habitação e alterações à renda apoiada foram já entretanto viabilizadas antes mesmo do OE do próximo ano, sinalizou a porta-voz do BE.

A moção conjunta que as principais tendências do BE levam à convenção deste fim de semana sustenta que a dívida pública e a dívida do sistema financeiro permanecem "as maiores ameaças às contas do Estado e constituem os maiores problemas estruturais das contas nacionais" de Portugal.