A coordenadora do Bloco de Esquerda (BE) Catarina Martins criticou este sábado a decisão de se declararem extintos os procedimentos contraordenacionais contra o ex-presidente do BCP Jardim Gonçalves, lamentando que «Portugal seja um país com dois pesos e duas medidas».

«No momento em que sabemos que Jardim Gonçalves viu as suas multas perdoadas, perguntamos de que rigor nos falam, quando nos falam do país. Quando um bancário que tinha de pagar um milhão de euros de multas, porque ficou com o que não devia ter ficado pode ser perdoado, ao mesmo tempo em que se falam de salários de miséria, continua a haver cortes sobre cortes e chama-se a isso rigor social», afirmou Catarina Martins.

A coordenadora do BE disse que «não há nenhum rigor num país que permite toda a facilidade à Finança». «Aos financeiros é sempre dado tudo e a quem vive do seu trabalho é sempre retirado tudo», acrescentou.

O juiz António da Hora decidiu declarar extintos todos os procedimentos contraordenacionais que visavam o fundador do Banco Comercial Português (BCP), Jardim Gonçalves, no processo interposto pelo Banco de Portugal, por prescrição dos factos.

Segundo a decisão do juiz do Tribunal de Pequena Instância Criminal de Lisboa, a que a agência Lusa teve acesso, todas as nove contraordenações que tinham sido imputadas pelo Banco de Portugal a Jardim Gonçalves ficaram sem efeito.

Isto significa que o antigo presidente do BCP não terá de pagar um milhão de euros em coimas, e deixa de ficar inibido durante nove anos de exercer atividade na banca.

Esta decisão do juiz António da Hora não é passível de recurso.

Catarina Martins falava no Porto, no decorrer da festa comemorativa do 15.º aniversário do BE, onde também criticou o primeiro-ministro, Pedro Passos Coelho, e o presidente da Comissão Europeia, Durão Barroso.

«[Pedro Passos Coelho] esteve numa grande reunião com a Direita Europeia e orgulhou-se do que tem sido o percurso dos Governos de direita da Europa para salvar a Europa e o Euro. E logo a seguir veio Durão Barroso e disse que a Grécia era um caso de sucesso, porque ainda não tinha saído do euro. Mas as palavras que dizem não correspondem às vidas que vivemos», defendeu.

A coordenadora do BE vincou que «a Direita na Europa não salvou a Europa, não salvou o euro nem salvou a vida das pessoas», mas «salvou a Finança».

«A crise não foi criada pelos povos. A Direita está a enterrar os povos da Europa para salvar a Finança», insistiu.

O empresário Belmiro de Azevedo também foi alvo de críticas. «Quando se sabe quais são as maiores fortunas em Portugal e que elas aumentaram, um dos donos dessas fortunas, Belmiro de Azevedo, acha que este é o momento indicado para vir dizer ao país que os salários não podem aumentar porque os portugueses produzem pouco. Como aumenta a fortuna de Belmiro de Azevedo se os portugueses produzem assim tão pouco?», questionou, culpando «os gestores» pela «pouca produtividade».

Catarina Martins apontou a palavra «precariedade» como aquela que o BE colocou na agenda política nestes 15 anos de existência, e prometeu que o Bloco não vai «pactuar» com uma política que «transforme» Portugal no «país da falta de dignidade e da humilhação de quem vive do seu trabalho».

«Não vamos alterar a situação em Portugal se continuarmos a achar que é normal, uma qualquer Comissão Europeia, um qualquer FMI ou um qualquer BCE venha aqui dizer que rigor orçamental é cortar nos salários, enquanto dá benefícios fiscais», concluiu.