A porta-voz do BE, Catarina Martins, defendeu esta sexta-feira que a coligação do Syriza com o partido de direita nacionalista Gregos independentes «não é transponível para Portugal», porque «não há partidos de direita antiausteridade».

Em declarações à agência Lusa, Catarina Martins afirmou que a coligação pós eleitoral do Syriza com a direita nacionalista é «centrada no essencial» e que se mantêm «matérias que os dividem muitíssimo».

A dirigente bloquista sublinhou que o Gregos Independentes «não é um partido de extrema-direita, ao contrário do que tem sido dito»: «O Syriza precisava de ter um partido que estivesse de acordo no combate à austeridade (...) é sobre esta matéria que é feito o acordo de coligação».

«O Syriza é largamente maioritário mas não teve maioria absoluta, portanto não podia formar governo sozinho e teve de fazer governo com o partido» que partilha o «confronto essencial que a Grécia tem pela frente, com a Comissão Europeia, com Angela Merkel, para acabar com o memorando e a austeridade no país».


A líder do BE considerou que «a tomada de posse laica» de Alexis Tsipras, sem a cerimónia tradicional com a Igreja Ortodoxa, ou a legislação para a nacionalidade «por solo» que está a ser preparada, «mostra que o Syriza não cedeu nas questões essenciais».

«Esta é uma coligação que permite o confronto europeu, mas não é uma coligação de desistir de nenhuma das bandeiras», advogou.


Questionada sobre se o BE seria capaz de se coligar com um partido de direita, respondeu: "Eu não estou a ver é com que partido em Portugal, o CDS acha que o FMI é uma coisa boa e gostou de estar sempre ao lado da fotografia do memorando, as situações não são transponíveis, o PSD esteve com o memorando".

«Não há em Portugal um partido de direita antiausteridade, é um quadro que não pode ser transposto para Portugal», alegou.


Futuro da Europa joga-se nos países do sul

A porta-voz do BE, Catarina Martins, afirmou esta sexta-feira que «muito do futuro» da União Europeia se joga nos países do sul e que o novo governo grego «mostra que pode ser viável» uma política oposta à austeridade.

Em declarações à agência Lusa, a dirigente bloquista, que participa no sábado, com a eurodeputada Marisa Matias, numa «manifestação pela mudança», no centro de Madrid, promovida pelo Podemos, considerou que há «uma força que cresce na Europa para que a política seja toda feita de forma diferente».

«Sabemos já que os governos da direita vão ser derrotados, sabemos que o governo da direita vai ser derrotado em Espanha e que o governo da direita também vai ser derrotado em Portugal, mas é preciso saber mais do que isso, é preciso saber que também que a essa derrota vai seguir-se uma política completamente diferente», declarou.


A líder do BE reconheceu que as situações da Grécia ou de Espanha não são iguais à de Portugal, mas disse acreditar «um novo confronto ao nível das instituições europeias» centrado na renegociação das dívidas e na oposição à austeridade possa «ajudar a que em Portugal também haja coragem para um novo rumo».

Até porque, segundo Catarina Martins, «o PS não é uma alternativa real» à austeridade, capaz de romper com «uma grande submissão ao diretório europeu».

«Que o PS não é o Syriza nós já sabemos», ironizou, a propósito de declarações do deputado socialista Sérgio Sousa Pinto.

«O quadro político em Portugal é diferente [do grego ou espanhol], mas o PS não tem descolado a nível europeu, votou em Jean-Claude Jucker para presidente da Comissão, aprovou o Tratado Orçamental, assinou o memorando da ‘troika’. O PS continua a não dizer uma palavra clara sobre questões tão prementes como a renegociação da dívida ou a rejeição da austeridade», observou.

Catarina Martins defendeu que a ação do novo governo grego pode impulsionar os partidos que querem «uma mudança radical» do sistema e ajudar a acabar com «a ideia de que a austeridade era o único futuro».

«Acho que o sul da Europa pode mudar nos próximos meses e é aqui que se joga muito do futuro de toda a Europa», afirmou, numa alusão às eleições legislativas em Portugal (setembro/outubro) e em Espanha (fim de 2015/início de 2016).

«A vitória do Syriza [na Grécia] põe o centro da política europeia onde ela deve estar, com uma proposta económica que mostra que pode ser viável dar resposta às pessoas, dizendo que é preciso renegociar as dívidas dos países periféricos, a dívida grega, mas também a dívida de Espanha, de Portugal, de Itália, esse movimento é muito importante», acrescentou.