Catarina Martins inaugurou o segundo dia do debate do programa de Governo, prometendo o "mesmo empenho" do Bloco de Esquerda para que o acordo com o PS seja bem sucedido. Ao mesmo tempo, deixou vários avisos: entre eles, a recuperação de rendimentos sujacente ao compromisso à esquerda, a fiscalização da atuação do Governo socialista quanto à banca e, ainda, que o BE vai insistir na reestruturação da dívida pública.  

"Do mesmo modo franco com que participámos na construção desta solução e mesmo empenho com que defendemos o acordo, comprometemo-nos também a não abandonar o nosso programa. Fazê-lo seria abandonar a força que permitiu este acordo", afirmou a porta-voz do Bloco de Esquerda. 

O BE teve um desempenho elogiado na comissão de inquérito ao BES. Catarina Martins deu esse exemplo em como o seu partido não vai deixar de atuar como até aqui, ficando de olho no que este Executivo vai fazer em relação aos problemas da banca:

"As dificuldades do Banif e do Novo Banco mostram que a prioridade tem de ser mesmo impedir o passado. Não pode o Governo esconder-se no Banco de Portugal, nem o Banco de Portugal continuar a apresentar pela calada faturas cada vez mais pesadas aos contribuintes"


Catarina Martins considerou que ver Sérgio Monteiro, o ex-secretário de Estado dos Transportes "da direita", agora contratado para tentar vender o Novo Banco e apresentar "projetos de reestruturação em Bruxelas" que o país, disse, não conhece, "lembra demasiado o passado para dar garantias de futuro".

"Com a mesma determinação com que defenderemos [o acordo, exigimos uma] clara prestação de contas do sistema financeiro, face a uma banca e a um regulador que falharam vezes demais", advertiu, respondendo logo às expectáveis críticas da direita quanto a este posicionamento do Bloco. 

"Escusa a direita de querer ver nesta afirmação qualquer ambiguidade do BE face ao compromisso que assumimos com o PS e com todo o país. Recusar esconder problemas não é fonte de instabilidade politica, escondê-los é que trouxe instabilidade permanente à vida das pessoas. A mudança da política passa também por aqui, trilhar um caminho novo (….) que exige tanto compromisso como exige clareza"


A deputada admitiu, antes, que há "posicionamentos tão distantes" da parte do PS em relação, por exemplo, a que todos os desempregados tenham acesso ao subsídio social de desemprego, a fazer convergir pensões sociais mais baixas com salário mínimo nacional, a aumentar "significativamente" a capacidade de investimento público e privado para criar emprego.

Tudo isso, na ótica do BE, "exige um processo de reestruturação da dívida" e parar "a sangria" de recursos para fora do país. O Bloco insiste, portanto, neste ponto que é uma das suas bandeiras, pese embora o acordo com o PS não a preveja:

"A reestruturação da dívida parece-nos um caminho inevitável. Peso da dívida é insustentável,. Ignorá-lo seria irresponsável e é por isso que nos empenharemos no estudo de soluções concretas"

 

À direita, deixou ainda a ironia de que "não deixa de ser estranho que esteja tão empenhada a repetir até à exaustão ilegitimidade do governo" e "nãoo tenha encontrado ainda um segundo sequer para falar da fraude eleitoral que foi a sua campanha". 
 
Deu como exemplo o "falhanço da meta do défice", os "continuados" problemas do sistema financeiro, a dívida que "triplicou depois de todos os sacrifícios" que os portugueses passaram. 

Por isso é que defendeu o acordo à esquerda: "Não assenta apenas no afastamento da direita o que já não era coisa pouca,. Assenta em compromissos diretos laborais, recuperar salários e pensões, proteger o estado social, travar privatizações".

E advogou:  "O empenho do BE será o mesmo para que seja bem sucedida a partir do dia hoje, sem ambuiguidades, mas também transigências, seremos garantia do cumprimento do acordo para travar o empobrecimento".


"Este não é o programa do PCP"

Da parte do Partido Comunista Português, o líder parlamentar João Oliveira avisou também assumiu que o programa de Governo socialista não é o seu, mas houve entendimento em alguns pontos essenciais. 

"O alcance desta convergência não não pode ser desvalorizado (...) Este programa não corresponde [ao do PCP], mas cá estaremos para contribuir para uma mudança de politicas"


O deputado lembrou que "dois podem mais do que um, mas não podem mais que quatro", e é essa a atual relação de forças na Assembleia da República.  

Este governo, avisou, "terá de enfrentar a contradição entre a propaganda de PSD e CDS e a realidade", bem como "a dependência externa" que o anterior Governo acentuou. 

Tal como o Bloco de Esquerda, o PCP também se mostra preocupado com as privatizações e com a banca, com João Oliveira a lembrar que o Governo de Passos e Portas ultimou a venda da TAP já depois de ter caído no Parlamento, tendo, no seu entender, "uma áltima vez" violado a Constituição.

"Também o Banif foi entretanto confirmado como preocupação que pesa sobre os portugueses. Por 4 vezes, o PCP questionou o primeiro-ministro. Foi preciso demitir o Governo para saber que o banco não vai devolver os 110 milhões de euros que PSD e CDS ali enterraram", condenou.


PAN otimista

André Silva, o único deputado do partido Pessoas Animais Natureza, cumpriu integralmente os tempos do seu discurso, mostrando o seu "agrado" para com as medidas que o Governo PS incorporou no seu programa, inspiradas naquilo que o PAN defende.

"Com pequenos passos, se fazem grandes mudanças. O PAN está a promover essas mudanças. Não é utopia", defendeu.