O líder parlamentar socialista, Carlos César, reiterou hoje que os “comportamentos irregulares, danosos ou criminais comprovados” constituem “motivo de revolta” no PS e questionou se o PSD também se sentiu revoltado com situações similares no passado.

“O que os portugueses querem saber é se um partido como o Partido Socialista se sente ou não revoltado com situações destas e talvez fosse importante saber, perguntar ao PSD, com a lista imensa de pessoas que já tiveram situações similares, se eles por acaso se sentiram nessa altura muito revoltados, ou se, mesmo agora passado todo este tempo, exprimem a sua revolta”, afirmou.

Em declarações aos jornalistas no final da reunião da bancada parlamentar socialista, Carlos César recusou que “só agora” o PS tenha demonstrado “vergonha ou revolta” por “comportamentos irregulares” que envolveram antigos ministros, como Manuel Pinho, ou o ex-primeiro-ministro José Sócrates.

“Todas as situações que envolvam comportamentos irregulares, danosos, comportamentos criminais comprovados, sempre que se confirmem, constituem para nós um motivo de revolta”, disse.

Isso “tanto pode acontecer com um antigo primeiro-ministro como pode acontecer com um antigo presidente de junta”, acrescentou.

Carlos César sustentou que o PS exprimiu a sua posição de “revolta” e “tristeza” com “muita firmeza e muita clareza”, sugerindo que, no passado, não foi pedida a mesma “veemência” na condenação daquele tipo de comportamentos noutros partidos políticos.

“Eu lembro que, ao longo das últimas décadas, não faltaram situações semelhantes, algumas delas comprovadas, mais graves, de pessoas que inclusivamente cumpriram penas de prisão, que eram altos dirigentes de outros partidos políticos, designadamente do PSD, e eu não me recordo de ter sido pedida essa veemência ou sequer de o PSD ter falado disso”, criticou.

Questionado sobre a constituição de uma comissão de inquérito, proposta pelo BE, ao “pagamento de rendas excessivas aos produtores de eletricidade”, Carlos César disse esperar que permita “ter uma leitura do problema da formação dos custos da energia”.

O líder da bancada do PS, partido que já tinha anunciado que votará a favor da iniciativa, adiantou que houve “conversas sucessivas” com o BE visando um “entendimento” relativamente ao objeto da comissão de inquérito.

“Foi acertado com o BE esse entendimento, designadamente proporcionando que o trabalho desta comissão nos permita ter uma leitura do problema da formação dos custos da energia, de como foi tratado em particular nesse período, mas em particular desde 2004 até hoje”, disse.

O caso do antigo ministro da Economia Manuel Pinho durante o seu mandato (2005-2009) e as suspeitas de que recebeu pagamentos por parte do grupo Espírito Santo, “não é suscetível de poder ser esquecido” na comissão de inquérito, disse.

“Se se confirmarem as suspeitas e aquilo que tem sido indiciado, é um caso que temos obrigação de reter na nossa memória e também de providenciar para que de uma ou outra forma essas situações não possam ser repetidas”, defendeu Carlos César.

O caso que envolve o ex-ministro da Economia foi noticiado, em 19 de abril, pelo jornal ‘on-line’ Observador, segundo o qual há suspeitas de Manuel Pinho ter recebido, entre 2006 e 2012, cerca de um milhão de euros.

Os pagamentos, de acordo com o jornal, terão sido realizados a "uma nova sociedade 'offshore' descoberta a Manuel Pinho, chamada Tartaruga Foundation, com sede no Panamá, por parte da Espírito Santo (ES) Enterprises — também ela uma empresa 'offshore' sediada no paraíso fiscal das Ilhas Virgens Britânicas e que costuma ser designada como o ‘saco azul’ do Grupo Espírito Santo".