O histórico dirigente comunista Carlos Brito disse esta terça-feira que Portugal vive acontecimentos políticos históricos que trazem “a surpresa muito positiva” de os partidos de esquerda terem chegado a acordo para “dizer basta” à política de austeridade protagonizada pela direita.

Numa entrevista à agência Lusa, o antigo líder parlamentar do PCP, que em 2002 foi suspenso por manifestar discordância com a orientação oficial e se afastou do partido para integrar a associação Renovação Comunista, disse estar “entusiasmado” com a convergência à esquerda e com os acordos que permitirão ao PS formar um governo e ter suporte parlamentar do PCP, do BE e do Partido Ecologista Os Verdes (PEV).

“Tenho acompanhado o que se está a passar com algum entusiasmo, porque acho que se estão a produzir acontecimentos verdadeiramente históricos”, afirmou Carlos Brito, sublinhando que “a esquerda percebeu que tinha chegado o momento em que era necessário dizer basta, um grande basta, à política de austeridade” e a “todos os estragos” que esta “provocou em todos os aspetos da vida nacional”.


Carlos Brito disse ter visto com “enorme regozijo” as formações de esquerda – PS, PCP, BE e PEV – “terem a capacidade” e a “coragem” de “superarem as diferenças” e “convergirem em pontos essenciais”, assim como terem sido capazes de “responder com medidas, que não são revolucionárias, mas medidas que melhoram a situação das pessoas, a alguns dos maiores problemas que se verificaram neste período” de Governo PSD/CDS-PP.

A esquerda foi assim capaz, considerou, de produzir um conjunto de medidas “importantíssimas” em matérias como “políticas de salários, de pensões, da segurança social e até aspetos da vida cultural do país” e dão “muita esperança relativamente ao futuro próximo do país”.

“Foi uma surpresa muito positiva e saúdo este posicionamento do PCP, não só eu, como toda a associação de que faço parte da Renovação Comunista”, afirmou.

Carlos Brito disse também que a Direita “não se pode queixar”, porque Pedro Passos Coelho foi indigitado, apresentou o programa de governo da coligação, mas PSD e CDS-PP “não tiveram a maioria para o aprovar e não foram capazes de fazer as alianças para que isso acontecesse”.

“Tudo se está a passar dentro da maior normalidade democrática, foi dada oportunidade ao partido que ficou à frente nas eleições de formar governo, ele não consegue, portanto o que é normal em democracia é seguir-se na ordem de escolha, por parte do Presidente da República, o segundo partido mais votado”, defendeu.


Carlos Brito destacou ainda importância de o PS se ter “assegurado, através de um processo de negociações aberto, transparente, que o país acompanhou e que não foi nada secreto”, uma “maioria para fazer aprovar o seu programa de governo e uma maioria que não é de ocasião, para apenas viabilizar o programa de governo”.

“Não. É uma maioria que se afirma numa perspetiva - como disse o Jerónimo de Sousa - de legislatura, numa perspetiva de quatro anos, com um conjunto de medidas perfeitamente calendarizadas ao longo desse período e com normas claras”, contrapôs Carlos Brito.

Embora preferisse uma participação do PCP, do PEV e BE no Governo do PS, o antigo dirigente do comunista defendeu que o executivo socialista “não fica enfraquecido por essa circunstância” e até “é mais sólido” por haver acordos distintos entre PS e PCP e PS e BE.

A moção de rejeição do PS ao Programa do Governo foi hoje aprovada com 123 votos favoráveis de socialistas, BE, PCP, PEV e PAN, o que implica a demissão do executivo PSD/CDS-PP.