PCP e BE condenaram esta quarta-feira a reação do primeiro-ministro, Pedro Passos Coelho, às eleições gregas, considerando que desdenhou de uma «opção soberana» e foi o «mais radical» chefe de Governo europeu e «mais alemão» que Merkel.

No período de declarações políticas no parlamento, hoje dominado pelo resultado das eleições gregas, PCP e BE quiseram também voltar a colocar a questão da reestruturação da dívida portuguesa na agenda.

«Ficámos agora a saber que o primeiro-ministro de Portugal não gosta de contos para crianças. Assim qualifica a renegociação da dívida, de que nem quer ouvir falar. Assim desdenha a opção soberana do povo de um país berço da civilização europeia que exprimiu democraticamente a sua vontade», afirmou o vice-presidente da bancada comunista António Filipe.

Segundo o deputado comunista, «aos contos para crianças, o primeiro-ministro, Pedro Passos Coelho, prefere os filmes de terror, que mais se assemelham à situação vivida pelos povos submetidos às políticas de austeridade que tão fanaticamente defende e impõe, ao empobrecimento e ao retrocesso social».

Também a deputada do BE Cecília Honório afirmou que a reação do chefe de Governo português é «das mais radicais declarações face às de outros chefes de governo da Europa» e que Passos «foi mais alemão que a senhora Merkel nestas declarações».

Na declaração política do BE, a porta-voz do partido, Catarina Martins, considerou que o primeiro-ministro se pronunciou de «forma inusitada e diplomaticamente insultuosa».

«A última coisa que Passos Coelho, que prometeu em campanha não subir impostos e garantiu ser mentira que quisesse descer salários e cortar subsídios de férias, pode dizer é que os eleitores de um qualquer país acreditaram num ‘conto de crianças'», afirmou.

Na segunda-feira, Pedro Passos Coelho apelidou de «conto de crianças» a ideia de que «é possível um que um país, por exemplo, não queira assumir os seus compromissos, não pagar as suas dívidas, querer aumentar os salários, baixar os impostos e ainda ter a obrigação de, nos seus parceiros, garantir o financiamento sem contrapartidas».

Após a declaração política do PSD, protagonizada por Teresa Leal Coelho, o líder parlamentar do BE, Pedro Filipe Soares, insistiu no tema e pediu esclarecimentos sobre as declarações do primeiro-ministro português, mas a deputada social-democrata não se pronunciou.

Na sua declaração política, Catarina Martins defendeu que «depois da chantagem inicial de Bruxelas, FMI e Berlim, as vozes da Europa começam a mudar» e «o Governo irlandês mostra-se recetivo a uma conferência internacional da dívida, como propõe o Syriza».

A porta-voz bloquista defendeu que «depois do resultado de domingo e do mais recente programa do BCE, o debate sobre o fim da austeridade e a renegociação da dívida ficou no centro da política europeia», e desafiou o Governo português a escolher se continua «a defender os interesses da finança, ou se se junta a quem, na Europa, coloca o futuro da economia e os interesses dos cidadãos acima da ortodoxia financeira».

Também António Filipe afirmou na sua declaração política que «a exigência de renegociação das dívidas soberanas ganha agora um peso político qualitativamente novo, que não pode ser ignorado».

O deputado comunista referiu-se aos resultados do partido comunista grego, o KKE, afirmando que «registou um progresso eleitoral que contribuirá para o prosseguimento da luta em defesa dos interesses dos trabalhadores e do povo grego».

Já Catarina Martins, depois de desafiada pelo PSD a justificar a coligação de Tsipras com um partido de direita nacionalista, disse que os comunistas gregos recusaram ir para o Governo.

Tanto o PSD como o CDS falaram da inexistência de mulheres na composição ministerial do Governo grego.

«Eu espero que os homens que fazem parte do Governo grego sejam melhores para a Europa que a senhora Merkel», respondeu o comunista António Filipe.