A dirigente do Bloco de Esquerda Mariana Mortágua desafiou o PS a refletir, e depois a definir, até que ponto está disposto a chegar para se assumir como uma alternativa global ao sistema capitalista.

Este repto foi deixado pela deputada do Bloco de Esquerda na sua intervenção na "rentrée" política do PS, que decorre em Coimbra, no Convento de São Francisco. O discurso da bloquista mereceu, por vezes, palmas de uma plateia de militantes e simpatizantes socialistas.

Mariana Mortágua subiu este sábado ao palco da conferência promovida pelos socialistas e referiu-se ao teor de uma anterior intervenção que ouvira e que fora proferida pela secretária-geral adjunta do PS, Ana Catarina Mendes.

A deputada bloquista disse que concordava com Ana Catarina Mendes em relação à defesa do princípio da igualdade e, igualmente, com a crítica que a dirigente socialista fizera às lógicas inerentes "pragmatismo" político.

Mas Mariana Mortágua também deixou logo a seguir um desafio ao PS.

"Cabe ao PS pensar sobre o que representa o capitalismo e até onde está disposto a ir para constituir uma alternativa global ao sistema capitalista", declarou, já quando terminava a sua intervenção.

De acordo com a deputada do Bloco de Esquerda, em toda a Europa os sociais-democratas da família do PS "deixaram de discutir o modelo económico.

"Assinaram por baixo a conceção da liberalização dos mercados financeiros e da flexibilização do mercado de trabalho", apontou.

Em termos globais, a dirigente do Bloco de Esquerda defendeu a tese de que as desigualdades sociais provocam invariavelmente crises económicas, situou na década de 80 do século passado "a entrada em força do neoliberalismo", período em que se começou a desregulamentar as políticas públicas e em que continuou a crescer a taxação dos rendimentos do trabalho em contraponto à taxação dos rendimentos do capital.

Ainda em relação às últimas décadas, Mariana Mortágua identificou uma estagnação económica, que apenas terá sido "escondida" pela crescente ação dos mercados financeiros, permitindo que "a perda salarial da generalidade das famílias fosse compensada por um maior endividamento".

Nesta análise, a dirigente do Bloco de Esquerda atacou ainda um fenómeno que caraterizou como "neomercantilismo", pelo qual países como a Alemanha ou a China, através das exportações, usam (e agravam) a dívida de países como Portugal ou a Grécia.

Já o economista Eugénio Rosa, antigo deputado do PCP e ligado à CGTP-IN, estimou em 563 mil os postos de trabalho diretos perdidos em Portugal em consequência da crise financeira e económica registada a partir de 2007.

No entanto, em relação aos marginalizados do mercado de trabalho na última década, Eugénio Rosa falou em 1,4 milhões de pessoas.

"Fala-se muito do desemprego jovem, mas o mais grave pode estar na faixa dos seniores sem qualquer hipótese de acesso ao trabalho. Este desemprego não aparece nas estatísticas", advogou.

Eugénio Rosa sustentou ainda que as principais vítimas da última crise financeira foram trabalhadores com qualificações ao nível do Ensino Básico.

"Foram em alguns casos substituídos por trabalhadores com qualificações médias e altas, mas o rendimento médio dos trabalhadores em Portugal não aumentou. Isto quer dizer que o aumento de qualificações nem sequer correspondeu a um aumento do nível salarial", acrescentou.