A Web Summit retirou o convite a Marine Le Pen, na sequência das queixas registadas em Portugal sobre a presença da líder da extrema-direita francesa no evento.

O CEO da Web Summit, Paddy Cosgrave, assumiu no Twitter ser "agora claro" que a "decisão correta" é "retirar o convite" à líder da extrema-direita francesa.

Paddy Cosgrave assumiu que as críticas geradas online na última noite estão na origem da decisão, assumindo que a presença de Marine Le Pen é "desrespeitosa para o país anfitrião" e "desrespeitosa para os milhares de participantes" no evento.

“A questão do ódio, liberdade de expressão e plataformas tecnológicas é decisiva em 2018”, pelo que a Web Summit “vai redobrar esforços para abordar esta difícil questão com mais cuidado”, escreveu, ainda, acrescentando: “Estamos abertos a quaisquer sugestões sobre quem pode ser adequado, mas também desadequado, para falar sobre um amplo conjunto de questões que afetam a sociedade e a tecnologia.”

Na sequência de várias queixas, a organização da Web Summit disse, na terça-feira, que retiraria o convite a Le Pen se o Governo português pedisse, o que não aconteceu.

Em comunicado divulgado nesta quarta-feira, o gabinete do ministro da Economia, Manuel Caldeira, assumiu que não iria fazer esse pedido.

Segundo a nota emitida, "o Governo português, estando, pelo seu impacto, empenhado no acolhimento deste evento privado, não tem, como em outros eventos, intervenção na seleção de oradores", justifica.

Para o executivo, a Web Summit "trata-se de um fórum alargado de discussão de tendências de mercado, cujo alinhamento - oradores e programa - é da exclusiva responsabilidade da organização".

Numa longa mensagem publicada no site Medium, Paddy Cosgrave justificou, na terça-feira, o convite à líder da extrema-direita francesa com a defesa da liberdade de expressão, mostrando-se, também, recetivo às críticas e à retirada do convite a Marine Le Pen.

 

Se os nossos anfitriões em Portugal, o Governo português, nos pedirem para cancelar o convite a Marine Le Pen, iremos, evidentemente, respeitar esse pedido e fazê-lo imediatamente", afirmou o cofundador da Web Summit, que este ano se vai realizar pela terceira vez em Portugal, no mês de novembro.

A situação surgiu depois de, na terça-feira, o Bloco de Esquerda ter criticado o uso de dinheiros públicos para convidar Le Pen para a Web Summit.

Neste momento, tem de haver uma tomada de posição e tem de ficar esclarecido qual é que é a posição do Governo e da Câmara de Lisboa sobre este convite", defendeu a bloquista Isabel Pires.

 

Na segunda-feira, a associação SOS Racismo exigiu que as entidades envolvidas na organização da Web Summit assumissem uma posição pública sobre o convite feito à líder do partido francês Frente Nacional, Marine Le Pen, e que esta seja desconvidada. Em comunicado, a SOS Racismo sublinhou que “o racismo não é uma opinião” e que, por isso, condena que a líder da extrema-direita francesa tenha sido convidada para estar presente como oradora na Web Summit.

BE saúda retirada de convite

O Bloco de Esquerda saudou hoje a decisão da Web Summit, defendendo que seria importante uma posição do Governo e da Câmara Municipal de Lisboa.

É a decisão mais acertada, também considerando as pressões que foram feitas e a própria pressão social que existiu relativamente ao convite que tinha sido feito à Marine Le Pen" para participar na Web Summit, disse à agência Lusa a deputada e dirigente do BE Isabel Pires.

No entanto, "apesar de saudarmos esta decisão, a única incógnita que se mantém é de facto [que] o Governo e a Câmara Municipal de Lisboa não tiveram uma única palavra sobre o assunto e isso lamentamos", acrescentou.

Para Isabel Pires, "seria importante haver uma tomada de posição considerando que existem dinheiros públicos nesta organização".

A declaração do organizador retirando o convite a Marine Le Pen "denota que assumiram o erro e não tinham talvez noção da importância que teria este convite", considerou ainda a deputada do Bloco de Esquerda.

SOS Racismo congratula-se com decisão

A associação SOS Racismo congratulou-se hoje com a decisão de ser retirado o convite à líder da extrema-direita francesa, considerando que ganha a democracia e ganham todos.

É a decisão que se impõe, veio 'tarde e a más horas', aliás, o convite nem devia ter acontecido, mas ainda bem que foi desconvidada porque assim ganha a democracia e ganhamos todos nós. Todo este jogo de empurra entre a organização e o próprio Governo era dispensável, uma vez que não podemos permitir que o erário público seja utilizado para legitimar um discurso racista e fascista que é o discurso de Marine Le Pen", disse à agência Lusa Mamadou Ba, da direção da SOS Racismo.

Tendo em conta "tudo o que sabemos, inclusive informações vindas a público recentemente de que o próprio Estado estaria muito preocupado com a reorganização da extrema-direita no nosso país, seria absolutamente inacreditável que se permitisse que viesse [a Portugal] uma das figuras mais importantes da extrema-direita para legitimar essa reorganização", salientou.

Sabemos que a nossa Constituição proíbe a existência de organizações que professam a ideologia racista, fascista e nazi que professa [o partido de] Marine Le Pen", acrescentou ainda a SOS Racismo.