Há mais marés que marinheiros. O Bloco de Esquerda sabe-o bem. Em 2011, o partido perdeu nas legislativas metade dos 16 deputados que tinha no Parlamento. E uma série de acontecimentos que levou os mais pessimistas a usar a palavra "crise". Primeiro, a saída de um ícone: Francisco Louçã abandonou a liderança, depois de mais de uma década à frente do partido. Depois, um conjunto de ruturas, com nomes sonantes a desvincularem-se do Bloco para formar outros movimentos. Muitos temeram o pior, preconizando que era o fim do BE. 

Mas depois apareceu Catarina Martins, que segurou o leme do partido e, contra ventos e tempestades, conseguiu levá-lo a bom porto. Agora, o cenário é muito diferente.

"O Bloco de Esquerda é a força política que está a crescer nestas eleições." As palavras são da porta-voz do BE, que discursou assim perante o público no comício de Braga. Catarina Martins foi clara e  traçou as metas para estas eleições: uma maior votação em todos os distritos e resgatar deputados que perdeu em 2011. Chegados aqui, percebe-se a confiança. O Bloco está renovado e com um novo fôlego e a sua capitã conseguiu impor-se entre os grandes, para lá da pequena estatura.

A campanha eleitoral arrancou embalada pela boa prestação da porta-voz do BE nos debates televisivos. Durante as duas semanas de campanha, a norte, a sul e ao centro, a candidata às legislativas recolheu os frutos desse desempenho: "Gosto muito de a ouvir na televisão", terá sido uma das frases mais repetidas. Curioso foi perceber que, não raras vezes, muitos admiradores até eram de outros partidos. De resto, a popularidade desenhou-se em crescendo.


Algumas conclusões


A porta-voz do BE distribuiu simpatia, mas a verdade é que nem teve de se esforçar. Na rua, as pessoas não só a reconhecen como vão ter com ela, querem cumprimentá-la, elogiá-la, falar-lhe das suas preocupações. Não, Catarina não tem de chamar o povo, o povo faz questão de chamar Catarina. Esta foi uma das ideias-chave que marcou a campanha eleitoral, mas há mais.

No caso do eleitorado, por exemplo, percebe-se que este já não é bem o mesmo que o que era há uns anos atrás. Durante muito tempo, o Bloco foi um partido muito associado ao público mais jovem, mas hoje a realidade é muito mais vasta e abrangente.

As arruadas mostraram três coisas. A primeira é a de que a proteção das pensões, que o partido tanto defende, tem conquistado idosos e reformados por todo o país. A segunda é a de que as mulheres que têm feito o Bloco navegar, como Catarina Martins e Mariana Mortágua, aproximaram o público feminino. Catarina Martins insiste que o BE é um partido de deputadas e deputados, mas as ruas mostraram que as mulheres deste país veem nas bloquistas a força e a coragem de todas as portuguesas.

A terceira conclusão prende-se com isto: admiração é uma coisa, votos são outra. Na rua, a população dirigiu-se a Catarina Martins com palavras simpáticas, mas não raras vezes os populares sublinhavam que eram de outro partido e o que o seu voto ia cair, por isso, noutra força política. Uma espécie de "gosto muito de si, mas...". A questão impõe-se: até que ponto esta popularidade será suficiente para convencer eleitores e ser traduzida em votos? 


As figuras


Ao longo destas duas semanas, o partido foi acalorado nas ruas e a estrela maior foi Catarina Martins. Disso não há dúvidas, mas isto também não foi tudo.

Outra bloquista ganhou destaque nesta campanha, com uma presença que promete dar que falar no Parlamento, caso seja eleita deputada. A cabeça de lista por Setúbal, Joana Mortágua, fez vibrar as plateias dos comícios por onde passou, com discursos estilizados, recheados de metáforas e ironia a gosto.

Depois, José Manuel Pureza, o ex-líder da bancada parlamentar do BE, que não foi eleito em 2011. Aqui os motivos são diferentes: não foi propriamente Pureza que se fez notar, mas a forma como o Bloco fez questão de notar, em Coimbra, que " chegou o momento de Pureza ao Parlamento".


O comício


O de Coimbra ficará certamente para a memória, com a passagem de testemunho de Francisco Louçã a Catarina Martins. O ex-líder do Bloco discursou para elogiar a sucessora e encorajar o partido. Qual antigo general, Louçã mobilizou as tropas.


Os discursos


Nos seus discursos, Catarina Martins defendeu as bandeiras do partido: o emprego, os salários dignos, a proteção das pensões, uma posição firme no quadro europeu. Apontou baterias não só à direita, como também ao PS. E foi mesmo a troca de farpas entre os dois partidos o tema que mais aqueceu a campanha eleitoral por estes lados.


As arruadas


O Bloco pode dar-se ao luxo de dizer que foi recebido calorosamente em quase todo o país, de Braga ao Algarve, Na cidade minhota as provas, se ainda fosse preciso haver provas, do real tamanho de Catarina Martins, com a prota-voz do Bloco arrastada pela população que a quis aplaudir, cumprimentar, elogiar.

Mas nem tudo foram rosas. Nas Caldas da Rainha, por exemplo, um popular exaltou-se e chegou mesmo a dizer que o Bloco era "um partido dos apanhados". Na Morais Soares, em Lisboa, um jovem estudante, que se votasse, votava PSD, parou a marcha do partido e perguntou a Catarina Martins por que esta não admitia as coisas boas que o Governo fez. 

​Curiosamente, as duas arruadas marcadas pelo menor contato com a população ocorreram no distrito onde está a sua base eleitoral mais forte: Lisboa. Por duas vezes, no Parque das Nações e no Chiado, o Bloco saiu com uma imponente caravana, mas sem receber os apelos frequentes que se sentiram noutras zonas do país.