Catarina Martins acusou a coligação Portugal à Frente de ter um "acordo com Bruxelas" para aumentar os impostos e exigiu que PSD e CDS-PP esclareçam, antes das eleições,  que impostos são esses e quanto vão custar ao país. As palavras da porta-voz bloquista surgem depois de um relatório da Comissão Europeia, divulgado esta segunda-feira, ter assinalado que o país tem margem de manobra para aumentar a carga fiscal.

"Alguém andou a negociar alguma coisa com Bruxelas e não fomos nós. PSD e CDS têm de responder antes das eleições quais são os impostos que andaram a negociar com Bruxelas? Quais são? Quanto é? Mostrem-nos a conta."


A dirigente do Bloco de Esquerda discursou esta segunda-feira durante um comício em Coimbra. Um encontro que juntou grandes figuras do partido como Francisco Louçã, protagonista da intervenção mais acalorada da noite, e João Semedo, homenageado de pé pela plateia.

Os impostos que PSD e CDS "acordaram com Bruxelas" constituíram apenas uma das três "partes escondidas" do programa da direita que Catarina Martins elencou ao longo do discurso. Há outras duas, segundo a dirigente bloquista: Passos Coelho pretende levar a cabo "a última reforma que lhe falta fazer, que é baixar os custos do trabalho" e "não só quer dar cabo das pensões, como o seu projeto para a Segurança Social é emitir mais 9 mil milhões em dívida pública".

Ainda à direita, a candidata às legislativas afirmou que Passos Coelho "explicou a sua doutrina sobre as eleições: 'quem perde sai'" e que, por isso, na segunda-feira, já se sabe que o partido social-democrata vai deixar um lugar vago na Assembleia da República.

"E portanto ficamos a saber que segunda-feira o PSD terá um lugar vago para tentar ocupar porque nestas eleições a direita será derrotada."


Os recados ao PS têm sido uma constante e, esta segunda-feira, não foi exceção. Catarina Martins voltou a reiterar que o Bloco não faltará a "nenhuma solução que respeite a democracia", mas que será "opositor" de "quem atacar quem vive no país".
 

"Homo troikensis", a nova espécie introduzida em Portugal


Antes de Catarina Martins, Francisco Louçã teve o discurso mais acalorado da noite, mobilizando os bloquistas para "derrotar a direita". Depois de ter estado no almoço-comício do partido, em Lisboa, no domingo, à segunda aparição nesta campanha, o ex-líder do BE subiu ao palco para fazer Coimbra vibrar: "O BE vale neste momento mais do que o CDS".

Louçã fez o retrato de "um país amargurado" pela crise e pela governação de direita. Um país "que desperdiça a sua gente, os seus jovens, os seus desempregados". "Desperdício é um governo de governantes indecentes". E nisto, apresentou uma nova espécie que foi introduzida no país, por sua vez usado como "ratinho de laboratório das políticas mais disparatadas": o "homo troikensis".

"É preciso vencer a direita. É preciso vencer as políticas que arrastaram Portugal para esta crise. Portugal foi uma cobaia, um ratinho de laboratório das políticas mais disparatadas, mais gravosas. É como se tivessem instalado em Portugal uma espécie nova, uma nova espécie de gente, predadores naturais, com ar sisudo, à espera do sangue fresco da manada, um tal de homo troikensis." 

As críticas de Louçã foram de Passos Coelho a Cavaco Silva, passando por António Costa. O ex-líder do Bloco dirigiu-se a Catarina Martins para dizer à candidata às legislativas que não se espante com uma ausência de resposta do líder do PS. 

"Catarina, não te podes surpreender por António Costa não te ter respondido ao desafio que propuseste. Não te espantes Catarina. A austeridade é o poder absoluto e é esse poder que temos de enfrentar." Depois, vincou "o discurso do medo", usado pelas duas principais candidaturas às legislativas. 

"Passos Coelho tem medo de António Costa. António Costa tem medo de Passos Coelho e os dois têm medo de Paulo Portas."

Francisco Louçã destacou o fôlego que o partido tem conquistado nesta campanha, elogiando a porta-voz do Bloco, e sublinhou os "três votos decisivos" para o partido, rumo a um bom resultado eleitoral: o voto de quem se abstém, o voto dos socialistas e o voto dos que foram engandos pelo PSD e pelo CDS.

"O primeiro é o voto de quem se abstém, que é mais forte do que qualquer outro, É o partido que não faz nada por Portugal, o voto de quem se abstém. Esse voto vai determinar a força que a esquerda vai ter. O segundo é o voto dos socialistas, que não sabem o que o partido quer. Nenhum socialista que tenha sido toda a vida um entusiasta do seu partido se pode dar ao luxo de fechar os olhos no dia 4. O terceiro é o voto dos que foram enganados pelo PSD e CDS. Há uma enorme dívida. Passos Coelho passeia-se pelo país, como se não tivesse de pagar esta dívida. Dívida de sálarios, dívida de pensões. Este Governo deve, deve muito. Essa gente toda precisa de alguém que se bata por eles."


Para Louçã, agora "o BE tem mais peso do que o CDS": "O CDS aliás, não está nas eleições, Só terá os deputados que lhe forem garantidos por estarem alcandorados nas listas do PSD." 


De pé por João Semedo


E em Coimbra, como não podia deixar de ser, José Manuel Pureza, o cabeça de lista por este distrito, foi outro dos protagonistas da noite. O bloquista acusou a direita de cumprir "o mandato imposto pela Comissão Europeia e o governo alemão", que transformou Portugal numa "espécie de loja dos 300 da Europa".

"A coligação de direita cumpriu com zelo e competência o mandato imposto pela Comissão Europeia e o governo alemão. Esse mandato resultou no empobrecimento de Portugal e consistiu em fazer de Portugal um país mais barato, uma espécie de loja dos 300 da Europa."  


"Chegou o momento, Pureza ao Parlamento", gritou a plateia.

O momento da noite foi, contudo, partilhado. Pureza agradeceu a presença de João Semedo no comício e, com o público de pé, fez uma homenagem emocionada ao ex-coordenador do Bloco, que, recorde-se, se afastou da liderança do partido por motivos de saúde.

"O Bloco deve muito a João Semedo. Havemos de pagar essa dívida com juros altos. Juros de luta, Juros de entrga, Juros de tenacidade."