O aumento do défice após o rombo do Novo Banco nas contas do Estado está na ordem do dia e Catarina Martins aproveitou-o para disparar críticas: ao Governo, por ter aplicado "tantos sacríficios" e, no final das contas, o défice de 2014 ter ficado igual ao de 2011, e ao PS, sublinhando que os socialistas se comprometeram com "as mesmas metas do défice" que a coligação. Aliás, a porta-voz do Bloco de Esquerda até introduziu uma nova expressão: depois de Marisa Matias se ter referido aos "lesados do PSD e do CDS", Catarina Martins referiu-se "aos lesados do centrão", incluindo coligação e socialistas no mesmo saco.

O Largo do Intendente, em Lisboa, estava cheio para o comício do Bloco, na noite desta quarta-feira. O discurso começou com o défice e a ideia de que o programa eleitoral da coligação "morreu" hoje. Algo que, de resto, já tinha dito aos jornalistas durante uma ação de campanha à tarde, na margem sul. 

"Hoje foi oficial: o défice de 2014 é igual a 2011. Depois de tanto sacríficios o défice de 2014 é em tudo igual ao de 2011. Hoje é o dia da prova do algodão e o programa da direita morreu."

Mas se as palavras de Catarina Martins foram duras à direita, a esquerda também não foi pupada, com o PS a ser alvo da pontaria afinada da candidata às legislativas. O PS que, sublinhou Catarina Martins, se comprometeu em Bruxelas, com "as mesmas metas do défice" que PSD e CDS.

"O PS que conhecemos é aquele que se comprometeu com as mesmas metas do défice que PSD e CDS. O PS que dizia que havia vida para lá do défice está desaparecido há muito."


Neste contexto, o Bloco quer saber que medidas de austeridade está a preparar "o centrão", ou seja, quer a coligação quer o PS, para depois das eleições cumprirem as "metas do défice impossíveis" com que se comprometeram, em Bruxelas.

Assim, a confiança foi questionada nos dois lados: por um lado a confiança que o país pode ter em Maria Luís Albuquerque e, por outro lado, a confiança que pode ter no programa do PS, voltando a vincar a questão da redução de 1600 milhões de euros nas pensões.

"Confiam em Maria Luis Albuquerque que com tantos sacrifícios conseguiu um défice em 2014 igual ao de 2011? Podemos confiar no PS que quer reduzir nas pensões, através do seu congelamento, 1600 milhões de euros? [...] "Está na altura de ajustar contas. Em quem podemos confiar o nosso voto?"


E até a comissão de inquérito ao BES serviu para Catarina Martins dramatizar o posicionamento do "centrão", reiterando que durante as audições, foram vários os deputados do PSD e do PS que protestaram, mas que, "na hora das propostas", quando Mariana Mortágua apresentou "medidas para que casos como o BES" não se repitam, os deputados não aceitaram.


A epopeia de Mariana Mortágua e os "roadshows" do Estado


Mariana Mortágua que foi, de resto, outra das estrelas da noite bloquista. Depois de ter brilhado na Comissão de Inquérito ao BES, a número um pelo círculo eleitoral de Lisboa, contou uma "epopeia" sobre o sistema financeiro, com muita ironia e humor à mistura. A PT e o BES como pano de fundo, A conclusão? "O Estado podia fazer a diferença, mas ficou do lado dos grandes investidores financeiros."

Depois, as "mentiras" do Governo sobre os fundos estrangeiros que, segundo Mariana Mortágua, "não vêm para capitalizar", mas para "canibalizar a economia". E os "roadshows do Estado pelo mundo". 

"Os fundos estrangeiros nao vêm para capitalizar, vêm para canibalizar a economia. Não vêm para criar emprego, vêm para explorar. O Estado faz roadshows pelo mundo a dizer como os salários baixaram em Portugal para aliciarem as empresas estrangeiras a investir em Portugal."


O frio fez-se sentir na noite da capital, mas o poema de Ana Hatherly, "O calculador de improbabilidades", que Helena Pinto foi ao palco declamar, terá aquecido a plateia, por alguns momentos.

 "O que é preciso é gente / gente com dente / gente que tenha dente / que mostre o dente / Gente que não seja decente / nem docente/ nem docemente / nem delicodocemente / Gente com mente / com sã mente / que sinta que não mente  /que sinta o dente são e a mente..."


E nisto, o público de pé. Mostram-se os cartazes com "Gente de Verdade", erguem-se as bandeiras. "Está na hora, está na hora de fazer a luta toda!"