"O défice é dívida pública, é a despesa posta às costas dos contribuintes".

A sala do Incrível Almadense, em Almada, estava cheia para o comício do Bloco de Esquerda na noite desta quarta-feira. A porta-voz do Bloco subiu ao palco para atacar a direita e dois pontos ganharam destaque: o relatório técnico de Bruxelas sobre o défice provocado pelo Novo Banco e os números mais recentes sobre a emigração.

Em relação ao défice, Catarina Martins começou por dizer que "a direita tem um aliado poderoso que é a Comissão Europeia".  "Quando é preciso salvar a austeridade a Comissão Europeia vem sempre em recurso do Governo", atirou.

A candidata às legislativas vincou que tanto o Governo, por Maria Luís Albuquerque e Pedro Passos Coelho, como a Comissão Europeia, pelo seu vice-presidente, reiteraram que o défice de 7,2% era apenas um "dado contabílistico", mas que agora se "chegou à conclusão" de que "aqueles 4,9 mil milhões de euros" são "dívida pública".

"Vieram-nos dizer que o défice não era problema. Hoje foi conhecido o relatório técnico, que diz que o défice de 7,2% é o que lá está escrito, Chegou-se à conclusão que aqueles 4,9 mil milhões de euros são de facto dívida pública. É a despesa posta às costas dos contribuintes, que em seis anos foram chamados a pagar seis bancos e por muito que nos digam que é contabilístico sabemos nas nossas vidas como saiu sempre das carteiras de quem trabalha""

"Os títulos das notícias dizem que a emigração estabilizou em 110 mil por ano. Desculpem? Há alguma estabilidade para um país que perde 110 mil pessoas por ano? Quando aceitamos esta retórica estamos a acietar a ideia de um esvaziamento de gente. Não aceitamos a estabilização."

Por isso, a dirigente bloquista destacou que o partido "é contra a normalização da  desistência".

"Alguma coisa a austeridade faz para nos dizermos que o nosso país não tem futuro. É contra a normalização da desistência que estamos nestas eleições. Não desistimos desse futuro."

"Bloco defende democracia com firmeza, PS tem dias"

Antes da intervenção de Catarina Martins, Fernando Rosas e Joana Mortágua fizeram vibrar os apoiantes do partido em Almada.

Primeiro Fernando Rosas, que respondeu às críticas do PS. O fundador do BE não tem dúvidas quanto ao que separa os dois partidos. "O Bloco de Esquerda defende a democracia com firmeza, o PS tem dias.

"Ouvi Carlos César dizer que votar no Bloco de Esuqerda é votar na direita. Não me admira a acusação, mas a falta de pudor que ela reveste."

Rosas recordou ainda o desafio deixado por Catarina Martins a António Costa e sublinhou a ausência de resposta à dirigente do Bloco. "O Partido Socialista recusou-se a dar resposta à proposta de compromisso que Catarina apresentou."

 

Maria Luís Albuquerque, a "realizadora de filmes"

Já a cabeça de lista por Setúbal, Joana Mortágua, usou muitas metáforas e uma boa dose de ironia, num registo que, de resto, tem sido habitual nos seus discursos, para criticar a coligação Portugal à Frente.

Joana Mortágua referiu-se a Maria Luís Albuquerque, cabeça de lista neste distrito pela PàF, como a "realizadora" de uma "trilogia" de filmes: "A Senhora das Swaps", "Venda do Novo Banco - Missão Impossível 3" e agora "Querido Encolhi o Défice"."

A candidata a deputada serviu-.se ainda da polémica com a alteração de contas na Parvalorem para dizer que o Governo é como "a orquestra que toca alegremente enquanto o Titanic afunda".

"Nem tudo o que eles roubam serve para tapar os buracos do navio que estava encalhado. São como a orquestra que toca alegremente enquanto o Titanic afunda."

Pelo meio citou um poema de António Aleixo, "Não acho maior tortura / Nem nada mais deprimente / Que ter de chamar fartura / À fome que a gente sente", e uma música do brasileiro Chico Buarque, "Está provado, quem espera nunca alcança".

O comício também ficou marcado por duas intervenções externas: um homem interrompeu Fernando Rosas para gritar que foi agredido numa ação de campanha do PS e uma mulher, mal Catarina Martins subiu ao palco, atirou que tinha muito orgulho em ver a porta-voz do BE na televisão.