O Partido Comunista Português advoga que o relatório final da comissão de inquérito BES/GES esteja menos centrado no "caráter" e nos atos de Ricardo Salgado e e que esteja, sim, mais focado na globalidade do sistema financeiro,.

"É imprescindível que fique bem claro que este não foi um problema de um caráter de um banqueiro, um problema isolado, que as falhas não foram apenas por incapacidade conjuntural do supervisor, Governo ou regulador, mas sim incapacidades que consideramos sistémicas", vincou Miguel Tiago, parlamentar comunista coordenador da comissão parlamentar de inquérito à gestão do BES e do Grupo Espírito Santo (GES), citado pela Lusa.

O deputado apresentou esta sexta-feira, em conferência de imprensa, as propostas de alteração do PCP ao relatório final da comissão de inquérito, texto já apresentado na sua versão preliminar pelo deputado relator, Pedro Saraiva (PSD), e cuja versão final terá de estar fechada na próxima quarta-feira.

Para os comunistas, a derrocada do BES e do GES foi "apenas mais um dos casos verificados no sistema financeiro" que "pouco têm a ver com o caráter dos gestores", mas mais a ver com a "natureza do sistema" financeiro.

"O problema não será resolvido com mais camadas de regulação ou supervisão". Os comunistas pretendem não aceitar um texto final que sinalize que o problema tenha estado "no comportamento de um indíviduo e pouco mais".
"Não queremos melhores atores para que a farsa seja mais credível", acrescentou.

De todo o modo, e vincando que o partido não tem uma posição de voto "fechada" até conhecer a abertura, ou não, para serem feitas alterações ao texto final, Miguel Tiago diz que a comissão de inquérito "foi por si só um sucesso" e admite não ser "forçoso" que todos os grupos parlamentares tirem as mesmas conclusões.

A comissão foi proposta pelo PCP - e aprovada por unanimidade dos partidos - e teve a primeira audição a 17 de novembro do ano passado, tendo sido escutadas dezenas de personalidades, entre membros da família Espírito Santo, gestores das empresas do grupo, reguladores, supervisores, auditores e agentes políticos, entre outros.

O objetivo do trabalho dos parlamentares é "apurar as práticas da anterior gestão do BES, o papel dos auditores externos e as relações entre o BES e o conjunto de entidades integrantes do universo do GES, designadamente os métodos e veículos utilizados pelo BES para financiar essas entidades".