A ex-dirigente do BE Ana Drago recusou a exclusão automática do PS na construção de uma alternativa política e criticou quem rejeita a possibilidade de exercício de governo, ficando-se pela «inconsequência» de posições de princípio.

Estas posições foram assumidas em entrevista à agência Lusa, na qual anunciou a sua demissão desta força política e a renúncia ao lugar de deputada da Assembleia Municipal de Lisboa.

Questionada sobre a forma como encara eventuais entendimentos com o PS, a ex-deputada bloquista apontou «diferentes setores» nesse partido, «o que é percetível até pelo atual debate interno em curso».

«Excluir à partida o PS de uma alternativa política que permita resguardar o país, o Estado social e permita oferecer um futuro diferente; excluir à partida o PS quando ainda está a fazer um debate interno e ainda não se sabe exatamente o que vai apresentar aos portugueses, isso é desistir da luta, é desistir de ter um Governo com uma parte da esquerda em Portugal. Acho que uma esquerda que sabe o que é fundamental tem de obviamente desafiar o PS para a construção de um eixo programático. Esse é o desafio», sustentou.

Segundo a ex-deputada bloquista, «o problema da esquerda à esquerda do PS em Portugal, durante muitos anos, foi uma incapacidade de puxar o PS para a esquerda - e obviamente também houve indisponibilidade do PS para isso».

«O facto de estarmos a discutir a incapacidade de Portugal se voltar a reconstituir no prazo de uma ou de duas décadas torna necessário que quem está à esquerda consiga fazer um processo de análise entre o que é fundamental na nossa batalha política, o que estamos a defender e, em torno disso, construir compromissos políticos. Se não for possível, não é possível, mas esse esforço tem de ser feito» advogou.

«Esse processo não pode obviamente começar pela eliminação automática de um conjunto de interlocutores, ainda antes de estar feito um processo de debate programático», salientou.

A ex-dirigente do Bloco de Esquerda afirmou que os membros da Associação Fórum Manifesto concluíram que dentro do Bloco de Esquerda já não era possível fazer um processo de criação de alianças e de convergências, tendo em vista compromissos políticos que permitam designadamente salvaguardar aspetos determinantes do Estado social.

«Continuaremos um percurso que começámos há muitos anos juntos e vamos em busca de construir essa plataforma. O que aconteceu no sábado [ na Assembleia Geral do Fórum Manifesto, que decidiu pela desvinculação do Bloco de Esquerda] era um passo necessário. Perante a perspetiva de que neste momento são urgentes soluções para o país e que não era possível tê-las no Bloco de Esquerda, concluiu-se então, como se costuma dizer, que amigo não empata amigo», declarou Ana Drago.

Ou seja, a partir de agora, segundo a ex-deputada e ex-dirigente bloquista, «as pessoas do Bloco continuarão a sua batalha política», enquanto as pessoas do Fórum Manifesto «partirão em busca de interlocutores e de plataformas de compromisso».

«Em parte, a discussão que houve dentro do Bloco sobre interlocutores e convergências já é conhecida. Entendemos que houve um conjunto de pessoas que se reuniu em torno do Manifesto 3D, que demonstraram essa vontade e esse sentido de urgência - e eu creio que é possível iniciar um diálogo com essas pessoas, assim como que em relação ao LIVRE, que nasce de um conjunto de membros que, em determinadas momentos, cruzaram os seus caminhos com o Bloco de Esquerda. Deve começar-se exatamente por aí, por esses interlocutores, que estavam já disponíveis aquando do debate europeu, pensando como é possível gizar uma solução para o futuro», frisou Ana Drago.