Neste terceiro dia de audições na comissão de inquérito ao BES, o deputado José Magalhães, do PS, interpelou o ex-ministro socialista Teixeira dos Santos, falando no que «Ricardo Salgado fez em 2011 para o estrangulamento da República» e para precipitar a queda do Governo de Sócrates, segundo deu a entender. Magalhães referia-se à pressão do setor financeiro para o pedido de ajuda. Teixeira dos Santos rejeitou que possa responsabilizar-se Salgado por isso:

«Não percebi a sua referência de Salgado enquanto estrangulador e provocador da queda do Governo. Contribuiu muito pouco. Não penso que a queda do Governo possa ser imputável ao BES ou à posição de Ricardo Salgado».


Teixeira dos Santos atribuiu a queda do Governo antes a «razões políticas», num recado para o PSD e para os outros partidos na altura na oposição que chumbaram o PEC4.

Agora, interferência da banca, e de Salgado em particular, não. «A este ponto a democracia funcionou, não podemos responsabilizá-lo por isso».

Durante a governação, recusou ter sido influenciado politicamente pelo dono do BES: «Nunca tomei nenhuma decisão baseado em indicações ou necessidades que tenham sido manifestadas pelo Dr. Ricardo Salgado. Tomei sempre em autonomia e juízo que eu próprio fazia das coisas», garantiu o ex-ministro das Finanças.

Admite que em relação à crise financeira, em 2010 e 2011, ouviu todos os responsáveis do sistema financeiro, incluindo o patrão do BES. Mas foram apenas «elementos informativos (...)  importantes para ajuizar sobre situação que país vivia e decisões. Escutei-o, ouvi-o como ouvi outros responsáveis», assegurou, rematando: «Nunca tive de tomar decisões que recorressem da influência de Salgado»

Nem Salgado influenciou, nem o Governo de José Sócrates o beneficiou nos investimentos públicos que colocou em prática, segundo Teixeira dos Santos:

«Nunca discuti com Salgado ou qualquer pessoa do BES questões de financiamento de qualquer projeto»


Já antes, tinha dito que não tomou «conhecimento de qualquer lobby especial para que o BES fosse envolvido em negócios». Deu o exemplo de projetos de investimento público, como as concessões e subconcessões rodoviárias, dizendo que o BES nem era o principal banco. «Destaca-se claramente o banco europeu de investimentos, CGD, BCP, BES e BPI vêm a seguir».

Houve algumas parcerias do BES com setor rodoviário, recorda, mas não tem conhecimento «de que tenha havido qualquer intervenção ou interferência no sentido de colocar instituição numa situação de privilégio».

Admite que teve uma série de reuniões com o BES durante o tempo em que foi ministro, mas recusa algum 

«Poderei ter, em particular, com o grupo BES, entre reuniões individuais e com vários participantes, uma vintena de reuniões», Mas rejeita qualquer «relação especial».


Diz que teve o mesmo tipo de relação com todos os participantes do setor financeiro.

Colapso do BES «foi sem dúvida uma surpresa»

O ex-ministro das Finanças também foi apanhado de surpresa, como os portugueses, pelo que aconteceu com o BES: «Para mim e para muitos cidadãos, isso que aconteceu, perante a imagem que vínhamos construindo ao longo dos anos, foi sem dúvida uma surpresa», admitiu.

E explicou porquê:

«Fiquei surpreendido com a situação que veio a público do BES, a partir da primeira metade deste ano, por aquilo que era o meu conhecimento do BES no exercício das minhas atividades governativas, pela posição que sempre revelou junto dos mercados e indicadores que eram públicos da sua atividade, da evolução e cotação do BES no mercado, dos resultados financeiros... »


Pedro Saraiva, do PSD, perguntou se o ex-ministro considera que a exposição à dívida soberana pode ter precipitado tudo isto. Uma pergunta claramente com sentido político, uma vez que os juros dívida soberana atingiu picos que precipitaram o resgate financeiro, era o PS Governo.

«É algo que com certeza teve impacto no seu desempenho financeiro, como teve no BCP, CGD, BPI, Santander. Não esteve exposto necessariamente de forma diferenciada de outras instituições», respondeu Teixeira dos Santos.

«É certo que durante a crise financeira a componente de dívida pública de instituições nacionais, o peso aumento e em boa verdade o agravamento da situação da dívida soberana ocorreu fundamentalmente parte final de 2011 e primeira metade de 2012. Recordo que foi isso que levou o Conselho Europeu em julho de 2012 a avançar com a união bancária e frase de Mario Draghi a dizer 'Tudo faremos para salvar o euro'», argumentou.

E mais: «A dívida pública era de facto problema que pudesse espoletar uma situação destas, mas o timing» não coincide, reforçou. Porque, para isso, «teria afetado outras» instituições, na altura, e não aconteceu. «Não tanto em 2013. O timing não joga com a própria evolução. Há uma assincronia clara entre uma coisa e outra», atirou.