A porta-voz do Bloco de Esquerda Catarina Martins considerou esta quinta-feira que o problema da TAP não é a greve de dez dias convocada pelos trabalhadores, mas sim o processo de privatização, que considera que irá lesar a empresa.

«O problema não é quem está a lutar pela TAP, o problema é mesmo o processo de privatização que um Governo em final de mandato quer levar até ao fim, sem condições nenhumas objetivas para o poder fazer com a responsabilidade que o momento exige.»


A deputada do Bloco de Esquerda (BE) sublinhou também, no final de uma visita ao mercado de Benfica, em Lisboa, que a companhia aérea «será lesada se for vendida».

«Quando a TAP for vendida a privados e os privados decidirem que em vez de terem Lisboa como um aeroporto de referência, terem-no em Madrid ou noutro sítio qualquer, isso sim vai lesar a TAP, isso sim vai lesar o país», afirmou, acrescentando que é um processo que «empobrece e retira soberania» a Portugal.

Catarina Martins vincou que o Governo deve parar o processo de privatização daquela que considera ser a companhia de bandeira portuguesa e a maior empresa exportadora do país.

«Não há melhor maneira de defender a TAP do que o Governo voltar atrás e parar o processo de privatização», afirmou aos jornalistas, considerando que é uma questão de «sensatez».

Questionada acerca da possibilidade do Governo decretar uma requisição civil para travar a greve dos trabalhadores da companhia aérea, marcada para maio, a dirigente do BE afirmou que «o Governo tem uma sanha persecutória a quem trabalha neste país, desde achar que o país que tem dos menores custos de trabalho da zona euro até considerar que é preciso continuar a baixar esses custos de trabalho ou achar que o direito à grave deve acabar com requisições civis.»

Catarina Martins aproveitou ainda para recordar que um país que «já perdeu o controlo sobre a eletricidade, que perdeu o controlo sobre os correios, que perdeu o controlo sobre os aeroportos, pode mesmo perder até a sua companhia de bandeira».

O PS, por sua vez, exigiu esta quinta-feira ao Governo que «pare imediatamente» com o processo de privatização da TAP, alegando uma situação de «caos» na empresa e ausência de legitimidade política de um executivo em final de mandato. Esta posição foi transmitida pelo coordenador da bancada socialista para as questões de economia, Rui Paulo Figueiredo, na Assembleia da República.

Perante os jornalistas, Rui Paulo Figueiredo também se demarcou do teor de algumas das reivindicações feitas pelo sindicato dos pilotos da TAP, embora sempre ressalvando que o executivo estará a «esconder documentos» paralelos ao memorando assinado em dezembro.

«O problema da TAP está no processo de privatização e no Governo. É preciso parar o processo de privatização e é preciso mudar de Governo. O Governo não tem legitimidade política para o que está a fazer», sustentou o deputado do PS, antes de acusar o atual executivo de ser «obcecado» com as privatizações em fase final de mandato, de ser «pouco transparente» e de não ter espírito de diálogo nem com os partidos da oposição nem com as estruturas sindicais.

De acordo com o dirigente socialista, a TAP registou nos últimos cinco anos cerca de 200 milhões de lucros, reduziu o endividamento em cerca de 400 milhões de euros e teve «paz social», mas a decisão do Governo de avançar com a privatização «lançou o caos na empresa».

Em relação às divergências de fundo entre Governo e sindicatos da TAP, Rui Paulo Figueiredo disse estar-se perante casos de falta de transparência por parte do atual executivo, já que os partidos não tiveram até agora acesso a uma «side letter» - conjunto de documentos paralelos (não oficiais) ao memorando público de dezembro último.

«No processo de privatização da TAP, também não conhecemos os documentos complementares ao caderno de encargos, não conhecemos avaliações financeiras, não conhecemos estudos comparativos, ou seja, não conhecemos nada.».


Questionado sobre as posições que têm sido assumidas pelo sindicato dos pilotos, que ameaça fazer uma greve de dez dias, Rui Paulo Figueiredo começou por dizer que o PS «não tem de comentar os argumentos» desse setor profissional.

«Naturalmente que há matérias em que nós não nos revemos. Não nos revemos na reivindicação de [20 por cento] capital social», disse, a título de exemplo.

No entanto, para o PS, o que era «essencial passava por se conhecer mais» sobre o processo da TAP.

«Temos pedido há vários meses que gostaríamos de conhecer os documentos, porque o Governo esconde muitas coisas. Algum motivo o Governo terá para esconder, o que é uma atitude totalmente irresponsável.»


 Também sobre esta matéria, o líder comunista, Jerónimo de Sousa, reiterou a posição do PCP contra a privatização da TAP, mas preferiu não julgar a opção dos pilotos de fazerem nova greve.

«Não conhecemos os conteúdos do acordo e pontos de discórdia. Trata-se de um conflito de dimensão laboral. Seria errado, da nossa parte, emitir juízos de valor sobre o que devem fazer os pilotos e suas organizações sindicais», disse, à margem de um encontro com a Ordem dos Advogados, em Lisboa.

«Isto não altera nada. Para nós, a grande questão de fundo continua a ser o problema da privatização da TAP. Nesse sentido, a questão central colocada é a da luta contra essa privatização.»


Os pilotos da TAP aprovaram na terça-feira uma greve de 10 dias, com início a 1 de maio.

Em causa estão as pretensões dos pilotos sobre as diuturnidades e sobre a obtenção de 20% do capital da companhia aérea, aquando da sua privatização, que deverá estar concluída até ao final desta legislatura. O Sindicato dos Pilotos anunciou que a TAP e o Governo procuram «valorizar artificialmente» a companhia perante os potenciais investidores, «encobrindo os prejuízos exorbitantes» que «os seus gestores lhe infligiram».

O Governo manifestou-se surpreso com a possibilidade dos pilotos porem em causa o acordo estabelecido com o Governo na véspera de Natal, que permitiu desconvocar quatro dias de greve, e recorrer à greve.

Os candidatos à compra do grupo TAP têm que entregar as propostas vinculativas até às 17:00 de 15 de maio.


"Isto não altera nada. Para nós, a grande questão de fundo continua a ser o problema da privatização da TAP. Nesse sentido, a questão central colocada é a da luta contra essa privatização", reforçou.