O Bloco de Esquerda considerou esta quinta-feira que o apoio de personalidades estrangeiras ao Manifesto dos 70 confirma que o Governo está «cada vez mais isolado» na ideia de pagar a dívida sem pedir uma reestruturação.

«Este manifesto de apoio [ao manifesto assinado por] personalidades portuguesas vem confirmar a ideia de que o Governo está cada vez mais isolado nesta sua ideia radical e irresponsável de que pode pagar a dívida nos termos e nas condições a que se propõe», disse em declarações à Lusa, Mariana Mortágua.

«É matematicamente impossível» para Portugal cumprir o pagamento da dívida, defendeu a deputada do Bloco de Esquerda, sublinhando que este não é só um entendimento do partido que representa, mas de várias personalidades que, em Portugal, já disseram que «não vale a pena sacrificar o crescimento da economia, o bem-estar das pessoas, os salários, as pensões e o bem-estar social em nome de uma dívida que vai estar sempre maior».

«Vamos estar sempre a correr atrás de uma senhora que está sempre cada vez mais longe», frisou Mariana Mortágua, lembrando que, hoje, um conjunto de economistas internacionais e professores de economia de diversas universidades confirmam essa ideia.

Mariana Mortágua criticou ainda o primeiro-ministro por ter desvalorizado o Manifesto dos 70 como se o documento tivesse sido feito por «gente de má vontade contra o Governo».

«É tempo de o Governo olhar as condições que tem, os números que tem à frente e perceber que se trata de um conjunto de pessoas de diversos quadrantes que se está a unir para o fazer ver esta evidência e render-se à realidade», sublinhou.

Mariana Mortágua acrescentou ainda que não faz sentido o Governo insistir no «dogma radical» que é o «pagamento da dívida» e «sacrificar o país a um objetivo que não é realizável», frisando que o Presidente da República já explicou que se trata de um «plano de empobrecimento do país».

«Quando o próprio Presidente da República avança com os números necessários ao pagamento da dívida e vem avançar a necessidade de mais 35 anos, mais uma geração, de austeridade e empobrecimento para o pagamento desta dívida, é o próprio que abre as portas e expõe o plano que o Governo tenta esconder: isto é um plano de empobrecimento, não tem outra possibilidade e facilmente se compreende que um país mais pobre não consegue pagar a sua dívida», referiu.

A deputada frisou também que o Manifesto teve uma «grande expressão em Portugal», apesar de ter sido desvalorizado por Passos Coelho.

«Foi desvalorizado pelo primeiro-ministro exatamente por isso, ele percebeu que há um consenso em torno da reestruturação», explicou.

O Manifesto dos 70, que apela à reestruturação da dívida pública recebeu o apoio de mais de 70 personalidades estrangeiras, na maioria economistas de renome internacional.

Tratam-se de economistas, muitos com cargos de relevo em instituições internacionais como o FMI, editores de revistas científicas de economia e autores de livros e ensaios de referência na área, entre os quais Marc Blyth, da Universidade Brown, nos Estados Unidos, autor daquele que foi considerado pelo Financial Times como o melhor livro de 2013, o «Austeridade».

O denominado Manifesto dos 70, tornado público há cerca de uma semana, é assinado por figuras da política de esquerda e de direita, como os ex-ministros das Finanças Manuela Ferreira Leite e Bagão Félix, por Francisco Louçã, António Saraiva, Carvalho da Silva, Gomes Canotilho, Sampaio da Nóvoa, além de empresários e economistas.