O Bloco de Esquerda (BE) formalizou hoje um projeto de deliberação na Assembleia da República para levar à Procuradoria-Geral da República uma alegada «mentira» de Rui Machete, com a maioria a acusar o partido de «número político».

«Neste parlamento, ou fora do parlamento, não há ninguém que possa dizer que a afirmação do dr. Rui Machete é verdadeira, e todos podem comprovar que é falsa», declarou o coordenador do BE e deputado João Semedo, numa intervenção política do partido focada nas críticas ao ministro dos Negócios Estrangeiros sobre a sua ligação ao caso BPN.

João Semedo falava depois da maioria PSD/CDS-PP ter inviabilizado hoje na conferência de líderes parlamentares o requerimento do BE para que o parlamento apresentasse queixa na Procuradoria-Geral da República sobre uma alegada «mentira» de Rui Machete ao Parlamento.

O bloquista declarou que «para o PSD e para o CDS-PP a mentira e a verdade são valores muito relativos», realçando também que a maioria não quer «que o parlamento decida e intervenha» sobre a matéria.

Na resposta, o deputado João Almeida, do CDS-PP, disse «não estranhar» que o BE tenha escolhido para a sua intervenção no parlamento uma matéria que não as autárquicas de domingo, onde o partido perdeu votos e representantes nas autarquias.

«O BE continua com a mesma atitude arrogante de sempre. Por isso é que [os eleitores] trataram eleitoralmente o BE como trataram», declarou, acusando o partido de «atirar areia para os olhos» e criar um «número político» para esconder um resultado eleitoral «profundamente negativo».

Também o PSD, pelo deputado António Rodrigues, lamentou que o BE tenha escolhido um «caminho jurídico» para abordar uma «questão política».

O agora ministro Rui Machete, declarou o deputado, «não se dirigiu ao parlamento» na carta que o BE trouxe para cima da mesa, mas sim ao deputado Luís Fazenda, então líder parlamentar.

«Rui Machete não mentiu à comissão de inquérito, porque escreveu ao deputado Luís Fazenda a 05 de novembro [de 2008] e a comissão [sobre o caso BPN] só surgiu em dezembro», disse.

Em discussão na conferência de líderes de hoje estava um requerimento do BE para que o parlamento participasse à Procuradoria-Geral da República o que diz ser a «mentira» do ministro dos Negócios Estrangeiros, sobre a propriedade de ações da SLN.

Questionado pelos jornalistas, o deputado bloquista Pedro Filipe Soares admitiu a possibilidade de o grupo parlamentar fazer em nome próprio uma participação à Procuradoria-Geral da República mas não antes de esgotadas todas as vias parlamentares.

«Esta escolha da maioria é a tentativa de silenciar a Assembleia. Se há alguém que forneceu uma informação errada a uma comissão de inquérito, não pode passar impune», disse.

O deputado frisou que Rui Machete deu «uma informação falsa» ao Parlamento quando afirmou, numa resposta enviada por carta ao BE, que não era detentor de ações da SLN (Sociedade Lusa de Negócios).

Rui Machete, hoje ministro dos Negócios Estrangeiros, manifestou na passada semana disponibilidade para prestar esclarecimentos ao Parlamento sobre o que classificou como «erro involuntário», depois de admitir ter sido acionista da SLN entre 27 de dezembro de 2000 e 30 de agosto de 2007, num esclarecimento dirigido ao semanário Expresso.