um artigo no jornal «Avante!»

 

Para o Partido Comunista Português, a queda do muro é celebrada pelas «forças da reação e da social-democracia» porque significou «a anexação» da República Democrática Alemã (RDA) pela República Federal Alemã (RFA), «a formação de uma grande Alemanha imperialista» e «a derrota» da União Soviética.

 

Ao longo do texto, os comunistas apelidam a RDA de «socialista», «herdeira das heroicas tradições revolucionárias do movimento operário e comunista alemão», «inseparável da vitória» sobre Hitler e com «notáveis realizações nos planos económico, social e cultural» devido à «sua política antifascista e de paz».

 

O PCP atribuiu a construção do muro «às potências imperialistas», criticando a criação de «uma RFA capitalista, amarrada ao imperialismo norte-americano e à NATO».

«Nas respetivas zonas de ocupação, e ao contrário do que aconteceu na zona de ocupação soviética, [EUA, Grã-Bretanha e França] não só não desmantelaram completamente as estruturas hitlerianas como protegeram os nazis e os monopólios alemães (Krupp, Siemens, e outros) responsáveis pela carnificina da guerra»

Para os comunistas portugueses, a RDA foi «hostilizada e caluniada pela reação internacional» e é importante destacar ainda a sua «solidariedade» com o 25 de Abril português.

 

«O imperialismo nunca desistiu das suas tentativas de liquidar a RDA socialista, acabando em 1989 por alcançar a vitória, conseguindo que manifestações, nomeadamente em Leipzig, que na sua essência reclamavam o aperfeiçoamento do socialismo e não a sua destruição, ganhassem a dinâmica contrarrevolucionária que conduziu à precipitação dos acontecimentos e à anexação forçada da RDA pelo governo de Helmut Kohl»

O artigo destaca o «caráter defensivo» do muro construído em 1961, «num tempo de agudíssima confrontação anticomunista», e com o objetivo final da «subversão dos países socialistas». «Um tal contexto confere ainda mais significado às realizações e ao prestígio mundial da RDA socialista e à sua ativa política de paz e de solidariedade internacionalista», completa o texto.

Considerando a construção do muro uma «resposta a constantes provocações», o PCP refere que este acabou por ser um «incontestável ato de segurança e soberania» e atribui-lhe várias vantagens:

«Independentemente da opinião que se tenha sobre a construção do muro de Berlim, a verdade é que este, se não contribuiu, pelo menos não impediu que a RDA fosse internacionalmente reconhecida como Estado independente e soberano, o Acordo Quadripartido sobre Berlim, o reconhecimento mútuo e a normalização das relações entre a RFA e a RDA e todo o processo de coexistência pacífica e desanuviamento na Europa que conduziu em 1975 à Conferência de Helsínquia sobre a Segurança e a Cooperação na Europa»

Os comunistas destacam que Berlim significava «a competição» entre capitalismo e socialismo» e que a queda do muro e a consequente «derrota do socialismo no Leste» agravaram a segurança e a paz na Europa.

«Aquilo a que assistimos no território da ex-RDA foi à destruição forçada das realizações económicas, sociais e culturais de mais de 40 anos de poder dos trabalhadores e, no plano internacional, à tentativa de impor (…) uma nova ordem mundial contra os trabalhadores e contra os povos»

O PCP critica a consequente e crescente «aliança agressiva da NATO» e a «natureza de bloco imperialista» da União Europeia, com as «suas políticas neoliberais, federalistas e militaristas», particularmente a Alemanha, que responsabiliza pela «destruição da Jugoslávia».

Para os comunistas portugueses, a atual situação na Ucrânia é até «o desenvolvimento lógico da cavalgada do imperialismo para Leste», com «a ascensão ao poder de forças fascistas», «a perseguição anticomunista e a escalada de confrontação com a Rússia».

O artigo sublinha ainda «a hipocrisia» dos que criticam o muro de Berlim, mas «continuam a construir barreiras do mais variado tipo (sociais, raciais, religiosas e outras) por esse mundo fora, incluindo muros físicos, exemplificando com os muros erguidos «por Israel para cercar e aprisionar o povo palestiniano na sua própria pátria», «pela Coreia do Sul na Península da Coreia dividida», «por Marrocos contra a luta libertadora do povo sahauri» e «pelos EUA na fronteira com o México».

O artigo conclui então que, atualmente, o capitalismo «não só se revela incapaz de resolver os problemas dos trabalhadores e dos povos como tende a agravá-los cada vez mais, ao ponto de pôr em causa a própria existência da Humanidade».

«A violenta ofensiva exploradora com que os trabalhadores hoje estão confrontados e que ameaça o mundo com uma regressão social de dimensão civilizacional, a desestabilização e destruição de países e regiões inteiras, o avanço do fascismo, o perigo de uma nova guerra de catastróficas proporções, tudo isso é consequência das tentativas do imperialismo de tirar partido da queda do muro de Berlim, ou seja, da destruição da RDA e do campo socialista como sistema mundial»

Por isso, os comunistas portugueses assinalam que «o socialismo é mais atual e necessário do que nunca e que os trabalhadores e os povos de todo o mundo resistem e lutam para se libertar das cadeias da exploração e opressão imperialista».

«Num processo acidentado, feito de avanços e recuos, de vitórias e derrotas, o futuro da Humanidade não é o capitalismo mas o socialismo e o comunismo», conclui o artigo.