O PCP divulgou um artigo no jornal «Avante!» no qual considera que existe uma «campanha anticomunista de intoxicação da opinião pública» em relação aos 25 anos da «chamada queda do muro de Berlim», assinalados este domingo.
 
Para o Partido Comunista Português, a queda do muro é celebrada pelas «forças da reação e da social-democracia» porque significou «a anexação» da República Democrática Alemã (RDA) pela República Federal Alemã (RFA), «a formação de uma grande Alemanha imperialista» e «a derrota» da União Soviética.
 
Ao longo do texto, os comunistas apelidam a RDA de «socialista», «herdeira das heroicas tradições revolucionárias do movimento operário e comunista alemão», «inseparável da vitória» sobre Hitler e com «notáveis realizações nos planos económico, social e cultural» devido à «sua política antifascista e de paz».
 
O PCP atribuiu a construção do muro «às potências imperialistas», criticando a criação de «uma RFA capitalista, amarrada ao imperialismo norte-americano e à NATO».

«Nas respetivas zonas de ocupação, e ao contrário do que aconteceu na zona de ocupação soviética, [EUA, Grã-Bretanha e França] não só não desmantelaram completamente as estruturas hitlerianas como protegeram os nazis e os monopólios alemães (Krupp, Siemens, e outros) responsáveis pela carnificina da guerra»


Para os comunistas portugueses, a RDA foi «hostilizada e caluniada pela reação internacional» e é importante destacar ainda a sua «solidariedade» com o 25 de Abril português.
 

«O imperialismo nunca desistiu das suas tentativas de liquidar a RDA socialista, acabando em 1989 por alcançar a vitória, conseguindo que manifestações, nomeadamente em Leipzig, que na sua essência reclamavam o aperfeiçoamento do socialismo e não a sua destruição, ganhassem a dinâmica contrarrevolucionária que conduziu à precipitação dos acontecimentos e à anexação forçada da RDA pelo governo de Helmut Kohl»


O artigo destaca o «caráter defensivo» do muro construído em 1961, «num tempo de agudíssima confrontação anticomunista», e com o objetivo final da «subversão dos países socialistas». «Um tal contexto confere ainda mais significado às realizações e ao prestígio mundial da RDA socialista e à sua ativa política de paz e de solidariedade internacionalista», completa o texto.

Considerando a construção do muro uma «resposta a constantes provocações», o PCP refere que este acabou por ser um «incontestável ato de segurança e soberania» e atribui-lhe várias vantagens:

«Independentemente da opinião que se tenha sobre a construção do muro de Berlim, a verdade é que este, se não contribuiu, pelo menos não impediu que a RDA fosse internacionalmente reconhecida como Estado independente e soberano, o Acordo Quadripartido sobre Berlim, o reconhecimento mútuo e a normalização das relações entre a RFA e a RDA e todo o processo de coexistência pacífica e desanuviamento na Europa que conduziu em 1975 à Conferência de Helsínquia sobre a Segurança e a Cooperação na Europa»


Os comunistas destacam que Berlim significava «a competição» entre capitalismo e socialismo» e que a queda do muro e a consequente «derrota do socialismo no Leste» agravaram a segurança e a paz na Europa.

«Aquilo a que assistimos no território da ex-RDA foi à destruição forçada das realizações económicas, sociais e culturais de mais de 40 anos de poder dos trabalhadores e, no plano internacional, à tentativa de impor (…) uma nova ordem mundial contra os trabalhadores e contra os povos»


O PCP critica a consequente e crescente «aliança agressiva da NATO» e a «natureza de bloco imperialista» da União Europeia, com as «suas políticas neoliberais, federalistas e militaristas», particularmente a Alemanha, que responsabiliza pela «destruição da Jugoslávia».

Para os comunistas portugueses, a atual situação na Ucrânia é até «o desenvolvimento lógico da cavalgada do imperialismo para Leste», com «a ascensão ao poder de forças fascistas», «a perseguição anticomunista e a escalada de confrontação com a Rússia».

O artigo sublinha ainda «a hipocrisia» dos que criticam o muro de Berlim, mas «continuam a construir barreiras do mais variado tipo (sociais, raciais, religiosas e outras) por esse mundo fora, incluindo muros físicos, exemplificando com os muros erguidos «por Israel para cercar e aprisionar o povo palestiniano na sua própria pátria», «pela Coreia do Sul na Península da Coreia dividida», «por Marrocos contra a luta libertadora do povo sahauri» e «pelos EUA na fronteira com o México».

O artigo conclui então que, atualmente, o capitalismo «não só se revela incapaz de resolver os problemas dos trabalhadores e dos povos como tende a agravá-los cada vez mais, ao ponto de pôr em causa a própria existência da Humanidade».

«A violenta ofensiva exploradora com que os trabalhadores hoje estão confrontados e que ameaça o mundo com uma regressão social de dimensão civilizacional, a desestabilização e destruição de países e regiões inteiras, o avanço do fascismo, o perigo de uma nova guerra de catastróficas proporções, tudo isso é consequência das tentativas do imperialismo de tirar partido da queda do muro de Berlim, ou seja, da destruição da RDA e do campo socialista como sistema mundial»


Por isso, os comunistas portugueses assinalam que «o socialismo é mais atual e necessário do que nunca e que os trabalhadores e os povos de todo o mundo resistem e lutam para se libertar das cadeias da exploração e opressão imperialista».

«Num processo acidentado, feito de avanços e recuos, de vitórias e derrotas, o futuro da Humanidade não é o capitalismo mas o socialismo e o comunismo», conclui o artigo.