Candidatos que não foram apoiados pelos partidos e que apresentaram candidaturas independentes e outros que estão a braços com a justiça ou que mudaram de partido protagonizam algumas das polémicas das listas para as eleições autárquicas de 01 de outubro.

Os casos de André Ventura, da casa de Fernando Medina, do fim do apoio do PS a Rui Moreira no Porto, a candidatura de Isaltino Morais, que inicialmente não foi aceite pelo tribunal, foram os mais mediáticos, mas há outros.

Veja também: os candidatos que voltaram e os que mudaram

 

Rui Moreira e o PS (Porto)

Manuel Pizarro (E) e Rui Moreira

A cinco meses das autárquicas, no Porto, o Partido Socialista começou por apoiar o independente Rui Moreira, mas a candidatura do atual presidente do município acabou por decidir que não havia condições para manter o apoio socialista.

A posição surgiu na sequência de declarações de Ana Catarina Mendes, secretária-geral adjunta do PS, que afirmou que o partido teria uma presença forte nas listas de Rui Moreira, tendo os socialistas sido acusados de colagem a uma vitória de Moreira.

O PS decidiu então avançar com uma candidatura própria liderada pelo ex-vereador Manuel Pizarro.

 

André Ventura e as declarações sobre ciganos (Loures)

André Ventura, candidato pelo PSD à Câmara Municipal de Loures

Em Loures, PSD e CDS-PP apresentaram a candidatura conjunta de André Ventura para presidente da Câmara, mas os centristas retiraram o apoio ao candidato após acusações polémicas deste, dirigidas à comunidade cigana.

Em duas entrevistas, primeiro ao Notícias ao Minuto e depois ao jornal I, o candidato fez várias declarações que foram interpretadas como xenófobas e foram condenadas até por membros do PSD, como a vice-presidente Teresa Leal Coelho.

André Ventura afirmou, por exemplo, que “em Portugal temos uma cultura com dois tipos de coisas preocupantes: uma é haver grupos que, em termos de composição de rendimento, vivem quase exclusivamente de subsídios do Estado, outra é acharem que estão acima das regras do Estado de direito".

No entanto, O PSD manteve o seu apoio a André Ventura. O presidente do partido, Pedro Passos Coelho, assegurou que o PSD não é xenófobo, nem racista, e que André Ventura tem condições para continuar a ser o candidato a Loures. Alguns dias depois, o CDS apresentou a candidatura de Pedro Pestana Bastos.

Num debate autárquico na TVI24, André Ventura foi questionado sobre se pretendia manter as suas declarações ou retratar-se. O candidato do PSD preferiu manter as suas palavras porque existe "um problema com a comunidade cigana em Portugal" que não é exclusivo de Loures.

Não estou a falar só de "subsidiodependência, estou a falar de casamentos aos 13 e aos 14 anos, de meninas retiradas da escola aos 13 e aos 14 anos e o Estado olha para o lado como se não fosse nada com ele", afirmou André Ventura.

 

A escolha de Teresa Leal Coelho (Lisboa)

Teresa Leal Coelho, candidata do PSD à Câmara Municipal de Lisboa

 

Para a Câmara de Lisboa, Teresa Leal Coelho não foi um nome consensual e abriu uma guerra interna no PSD.

A concelhia contestou ter sido excluída do processo de escolha, já que o nome de Leal Coelho foi indicado pela distrital, apoiada pelo líder do partido, Pedro Passos Coelho.

Apesar da polémica, Teresa Leal Coelho foi apresentada como candidata a 19 de julho, tendo admitido então que o antigo presidente da autarquia Santana Lopes foi a primeira opção do partido para a capital, num momento que ficou marcado por uma gafe. (Veja o vídeo)

 

O regresso de Isaltino Morais (Oeiras)

Isaltino Morais, candidato à Câmara Municipal de Oeiras

A candidatura independente de Isaltino Morais a Oeiras (Lisboa) foi rejeitada pelo tribunal desta comarca devido a “irregularidades”, mas o candidato recorreu e o recurso foi aceite, pelo que é candidato.

Isaltino questionou a imparcialidade do juiz que rejeitou a sua candidatura por este ter uma alegada relação de amizade e familiar com Paulo Vistas, o atual presidente da Câmara, também ele candidato independente a Oeiras e seu antigo vice-presidente, que ficou à frente da autarquia quando Isaltino Morais foi cumprir uma pena de prisão por fraude fiscal e branqueamento de capitais.

 

O apartamento de Fernando Medina (Lisboa)

Fernando Medina, presidente da Câmara de Lisboa e candidato pelo PS à autarquia

O atual presidente da Câmara Municipal de Lisboa, Fernando Medina, esteve no centro de outra polémica pré-eleitoral. Em causa está a compra de um imóvel por mais de 600 mil euros, operação que foi denunciada à Procuradoria-Geral da República, que abriu uma investigação.

O apartamento nas Avenidas Novas, em Lisboa, era propriedade de uma das herdeiras do grupo Teixeira Duarte e foi vendido a Fernando Medina por 645 mil euros. Uma rápida pesquisa online mostra que o valor do T4 duplex que o autarca comprou é inferior ao preço de mercado, uma vez que apartamentos do género nas Avenidas Novas são vendidos por mais de um milhão de euros.

Segundo o jornal Público, quando a antiga proprietária adquiriu o imóvel pagou, em 2006, 843 mil euros. Mais 198 mil euros do que pagou Medina passado 10 anos. Além disso, um ajuste direto de uma obra pela Câmara de Lisboa à Teixeira Duarte levantou ainda mais suspeitas.

O autarca mostrou-se "profundamente indignado" pela denúncia e lembrou o período em que o país se encontra, referindo-se à aproximação das eleições.

Na opinião do cabeça de lista do PS, “todos os portugueses percebem que denúncias anónimas que surgem a três semanas de um ato eleitoral só têm um objetivo, que é atingir eleitoralmente uma pessoa”.

Fernando Medina disponibilizou documentação da compra da casa na página de campanha e garantiu que o valor que pagou pelo duplex está muito acima dos preços de mercado. O autarca disse que quando o apartamento foi colocado à venda, através de uma agência, o valor pedido era de 643 mil euros, e que ofereceu mais 10 mil euros para fazer face a outros interessados.

 

As candidaturas independentes e trocas de partidos

As discordâncias entre as estruturas nacionais e concelhias dos partidos acerca dos candidatos a escolher levaram a ruturas que aumentaram o número de candidaturas independentes.

Os membros da comissão política concelhia socialista de Vila do Bispo, no distrito de Faro, demitiram-se em bloco em janeiro, acabando por apoiar listas independentes, por "discordarem da imposição" da comissão nacional na escolha do candidato autárquico Adelino Soares, a quem o PS local, em 2014, retirou a confiança política.

A concelhia do PSD de Matosinhos escolheu para candidato o biólogo Joaquim Jorge, mas a distrital do Porto impôs o médico Jorge Magalhães, o que levou os dirigentes concelhios a demitirem-se.

A escolha, pela distrital do Porto, da deputada socialista Luísa Salgueiro para candidata do PS a Matosinhos, contra a concelhia, que tinha optado pela candidatura do seu líder Ernesto Páscoa, levou a que este tenha impugnado judicialmente as listas do PS à câmara e a que o ex-presidente da Junta de Freguesia de Matosinhos, António Parada, se candidatasse como cabeça de lista do Movimento de Cidadãos de Matosinhos – SIM, desfiliando-se do PS em rotura com a federação distrital.

As estruturas socialistas também não se entenderam quanto ao nome do candidato socialista em Fafe (Braga) e, em Barcelos (Braga), levaram a que o líder desta concelhia, Domingos Pereira, se candidatasse por um movimento independente.

Na Vidigueira (Beja), a escolha para cabeça de lista da CDU de Rui Raposo fez com que a vice-presidente da autarquia, Maria Helena D’Aguilar, decidisse entrar na corrida eleitoral pelo Movimento Vidigueira Independente.

Em Estremoz (Évora), o ainda presidente da Câmara, Luís Mourinha (independente), enfrenta um processo judicial devido ao alegado corte de um subsídio a uma associação e está sujeito a perder o mandato e a comprometer a sua recandidatura, caso o Tribunal Constitucional confirme a decisão da Relação de Évora.

Carlos Pinto, antigo presidente da Covilhã (Castelo Branco) durante 20 anos, 16 dos quais ininterruptamente, sempre eleito pelo PSD, candidata-se desta vez como independente. Este antigo presidente foi condenado em julho a uma pena de prisão suspensa de três anos de prisão, passível de recurso, por um crime de prevaricação.

Em Ourém, distrito de Santarém, Paulo Fonseca (PS) tinha assumido a recandidatura ao terceiro mandato à Câmara Municipal, mas o tribunal, por duas vezes, invalidou a intenção, por insolvência pessoal, na sequência de um processo por dívida de 350 mil euros.

Há também casos de candidatos que mudaram de partido, como o atual presidente de Amares (Braga), Manuel Moreira, eleito em 2013 pelo PS e que agora se recandidata por uma lista PSD/CDS-PP, e, em Pedrógão Grande (Leiria), o atual presidente, Valdemar Alves, eleito pelo PSD, vai concorrer pelo PS, levando a que mais de 30 militantes socialistas deste concelho tenham pedido a “desfiliação imediata”.