O antigo chefe de Estado Ramalho Eanes considerou esta quinta-feira que Portugal «carece de um grande desígnio coletivo» consensualizado entre política e sociedade desde a revolução do 25 de Abril e do fim do Império Colonial. Para o general, Portugal precisava de ter «uma justiça comutativa indiscutível, redistributiva que permita uma solidariedade real: Este é o grande desígnio».

«Julgo que a integração europeia foi inicialmente quase que o nosso projeto coletivo, o grande problema é que a unidade europeia não era ela própria ainda um projeto e infelizmente depois acabou por ser o que é agora, um não projeto ou um projeto cujo desígnio final não é claramente prosseguido com empenho, determinação e solidariedade», afirmou à agência Lusa António Ramalho Eanes.


O antigo Presidente da República falava à margem de uma conferência sobre «Portugal no 1.º Quartel do Século XXI - Estratégias Rumo ao Futuro», na fundação Calouste Gulbenkian, onde defendeu que a União Europeia tem de respeitar «a vontade democrática da população» grega e deve dialogar sem preconceito com o novo Governo de Atenas.
 

«Um país, sobretudo depois de uma revolução, carece de ter um grande desígnio coletivo e naturalmente ter depois uma estratégia para o conseguir, nós tínhamos um projeto imperial que durou séculos, com o 25 de Abril esse projeto imperial foi liquidado, ele deveria ter sido substituído por um outro projeto, por um outro desígnio», defendeu Eanes, cmo reporta a Lusa.


O também ex-chefe militar considerou que desde de 1974 «houve realizações de grande mérito e grandes modificações, mas houve um desperdício grande, na medida em que não foram estabelecidas prioridades, não foram utilizados determinados recursos, não foram atendidas certas potencialidades do país».

«Acho que, como diz o Eduardo Lourenço, um país como o nosso, que sai do império com o qual viveu centenas de anos, tem de parar, tem de refletir, de ver o que quer e o que pode, e depois de ver o que quer, o que pode e como está a estabelecer um desígnio coletivo, discuti-lo, consensualizá-lo e quando estiver transformado num desígnio estabelecer um caminho lógico», sustentou.


Na abertura da conferência, a que presidiu, Ramalho Eanes tinha defendido para a necessidade de definir uma estratégia para Portugal que seja «realista» e «justamente discutida e consensualizada entre o poder político e a sociedade civil».

O antigo chefe de Estado alertou ainda para o aumento das desigualdades sociais, citando a obra do padre António Vieira: «Não há paz sem igualdade».