O ministro dos Negócios Estrangeiros, Augusto Santos Silva, afirmou que notou algum “ressabiamento” nos deputados da direita no parlamento e, numa alusão à “irrevogável” demissão de Paulo Portas no anterior executivo, sugeriu que esse mesmo "ressabiamento" seja "revogado sem delongas". A mensagem do número dois do Executivo, no encerramento da discussão do programa de Governo, foi marcada pelo apelo ao diálogo que António Costa já tinha deixado nos discursos. O tempo é de "compromisso", não de "radicalizações", defendeu.

"Já que é sempre revogável o que se considerou ser irrevogável, sugiro, modestamente, que o ressabiamento que se nota aqui e ali seja revogado sem delongas."


Santos Silva recuperou uma das principais mensagens de Costa nos últimos dias: a ideia de que este é um Governo capaz de "cultivar o diálogo", interessado em "construir acordos com os parceiros sociais" e estabelecer "um diálogo político com as forças que o apoiam e a minoria que se lhe opõe".

“É necessário virar a pagina do desprezo e indiferença pela concertação social e dos obstáculos à contratação coletiva, virar a página da auto-suficiência política e da incapacidade de estabelecer pontes e acordos. Não haverá comprazimento, apesar das palavras crispadas por alguns deputados, vírgula, ainda ressabiados, acredito que não haverá na oposição ressentimento e crispação.”

Defendeu que este é tempo do "compromisso", não de "radicalizações". Mas não deixou de preencher o discurso com várias farpas ao anterior Governo, lembrando os "custos do BES para os contribuintes", "a promessa da devolução da sobretaxa que era quimera e engodo". "O regime de fantasia e ilusão eleitoral a que o país foi conduzido na primavera e no verão passado não tinha fundamento", atirou.

O ministro sublinhou a necessidade de uma "nova política" que "só pode ser seguida pelos que estão empenhados em seguir outro caminho". E até "respondeu" às "preocupações" demonstradas pelas bancadas da oposição. Santos Silva afirmou que o "excesso de peso" do consumo interno na economia "simplesmente não existe", referiu que a eliminação dos cortes para os funcionários públicos não é "devolver um extra", mas "o que foi retirado" às pessoas e quanto ao clima político, alegadamente instável, considerou que esse é uma "acusação sem fundamento".

O governante também defendeu a legitimidade do Governo, que tem sido tão questionada pela direita, salientando que a democracia não é um "oligopólio" e que é inaceitável defender um arco da governação que exclua algumas forças políticas. 

"Defender um suposto arco da governação do qual estariam excluídas algumas forças é inaceitável porque a democracia não é um oligopólio .O único arco que deve admitir a democracia é o arco inteiro da representação plural tão alargado quanto o eleitorado exige em cada eleição."


"Aqui estamos, juntos"


O líder parlamentar e presidente do PS mostrou "entusiasmo" pela solução encontrada à esquerda e mais uma vez quis defender a legitimidade do atual Governo. "Tanto é povo o que vota na direita, como é povo o que vota nas esquerdas. Pensar o contrário é despovoar a democracia representativa".
 

"É o entusiasmo comum numa nova política que nos anima, nos compromete para um diálogo continuado, que nos mobiliza e fortalece expectativas caminho nesta legislatura. Aqui estamos, juntos, não por desejo comezinho de poder ou por caprichos partidários, mas por Portugal e por um melhor futuro para os portugueses".


Embora tenha dito que nem PS nem Governo entendem a oposição "como um inimigo", constatou que, "infelizmente", nestes dois dias de debate, "multiplicaram-se os sinais negativos da oposição minoritária, interessada no afrontamento pessoal". 

Ainda assim, assumiu que os socialistas procurarão "incessantemente o consenso". "Nem o Governo nem o PS estarão acantonados na legitimidade alcançada ou irredutíveis. Compete-nos estar cada vez mais com os portugueses".

As dificuldades no arranque da governação, atribui-as ao Executivo anterior: "Ao PS e ao Governo é o futuro que interessa. O novo ponto de partida, é certo, está dificultado pelos resultados improdutivos por uma política que prosseguiu sem freio. A tarefa é difícil e trabalhosa para nos libertarmos de um percurso desanimador". Mas há uma maioria de esquerda, lembrou, esperando "boa vontade e sentido de interesse nacional de todos".