O ministro dos Negócios Estrangeiros, Augusto Santos Silva, pediu, esta terça-feira aos embaixadores que transmitam uma imagem de Portugal "como aquilo que é", um país com "uma nova realidade económica e social" e que aposta na internacionalização da economia.

"A diplomacia é também contar a nossa história. Não é uma fantasia, não é uma ficção", disse Santos Silva, na sua primeira intervenção como chefe da diplomacia portuguesa no Seminário Diplomático, em que apontou nove objetivos principais da política externa portuguesa até 2019.


"Devemos em cada momento, todos nós, projetar a imagem de Portugal como aquilo que é: um país europeu, democrático, pacífico, seguro, com uma economia social de mercado, empenhado nos valores da solidariedade e da coesão social e na promoção da inovação e da igualdade. Devemos projetar a nova realidade económica e social portuguesa, o país das apostas no crescimento verde e na economia azul, nas tecnologias e no novo mundo digital, na incorporação tecnológica na economia e também projetar especificamente esta nossa estratégia de internacionalização da economia", afirmou o governante.


Sem esquecer, acrescentou, a crise que o país atravessou e a "vontade coletiva de superar essa circunstância e as suas dificuldades, que são conjunturais".

Santos Silva sublinhou que a política europeia e a política externa são "políticas de Estado", "de continuidade" e envolvendo "uma larga margem de consenso", sendo as grandes opções a integração europeia, a ligação transatlântica, a cooperação com os países de língua portuguesa e o elo com as comunidades portuguesas.

A diplomacia económica foi um dos aspetos destacados pelo ministro, que quer estruturar a ação do Estado em prol da internacionalização da economia portuguesa - objetivo para o qual contribui o regresso da tutela da Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal (AICEP) ao Ministério dos Negócios Estrangeiros e a criação da Secretaria de Estado da Internacionalização.

"Queremos internacionalizar a nossa economia, queremos fazer mais pelo comércio externo e pelo investimento português no estrangeiro e queremos atrair investimento estrangeiro", destacou.


A participação mais ativa no processo de construção europeia é um dos objetivos traçados pelo ministro: "Queremos, no quadro europeu, ser participantes ativos no seio daqueles que propõem uma nova combinação entre políticas de equilíbrio e estabilização do sistema financeiro e, do outro lado, políticas de convergência, de crescimento económico e de emprego, mas cumprindo escrupulosamente as regras em vigor e participando no processo de decisão sobre os modos de aplicação destas regras", afirmou.

Por outro lado, o Governo quer reforçar a ligação norte-atlântica, facilitando a comunicação entre o norte e o sul do Atlântico e "relançando a relação bilateral com os Estados Unidos, que tem problemas para resolver", sendo o "primeiro o de encontrar uma solução mutuamente satisfatória para as Lajes, mas [a relação] excede muito esse problema".

Quanto à Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), pretende-se desenvolver a cooperação multilateral, contribuindo para a criação de um pilar de cidadania e aprofundar a relação triangular com o Brasil e o cone sul de África.

"Este é um ano muito importante. Aprovaremos na próxima cimeira, no Brasil em julho, a nova visão estratégica da CPLP e estamos a participar ativamente nesse processo. Cabe a Portugal apresentar a candidatura ao próximo secretário ou secretária-executiva da organização. Temos aí uma responsabilidade muito importante, que evidentemente não declinaremos", declarou.

Revalorizar a estrutura do ministério e consolidar a rede diplomática, consular e comercial é outro dos objetivos.

"Precisamos de fazer duas coisas: reexaminar a rede, designadamente em função da sua articulação com a rede comercial. Há postos que têm de ser reforçados, há postos que neste momento estão ocupados por diplomatas que não têm o apoio que deveriam ter e há postos cuja localização pode ser revista e outros mesmo criados. Em 2016 ainda teremos condições orçamentais bastante restritivas, que são conhecidas por todos, mas este processo de racionalização da rede está inscrito no horizonte 2016-2019", afirmou Santos Silva.

O período de ajustamento deixou "danos evidentes" na rede e, "na medida do possível", o Governo quer "recuperar gradualmente", disse.

Quanto à cooperação, o executivo quer "mesmo definir um novo modelo", sublinhou o ministro, que defendeu que "a cooperação e a internacionalização económica são irmãs, não são rivais".

O relançamento da ação externa em contexto multilateral e a modernização da relação recíproca entre Portugal e as comunidades portuguesas são as outras prioridades enunciadas pelo ministro.

Questionado pelos jornalistas, Santos Silva disse não estarem previstas alterações na AICEP e do instituto Camões, entidades que tutela, afirmando que "os dirigentes e as dirigentes dos serviços, quer da administração direta quer da administração indireta do Estado estão em plenitude de funções".

"Todos sabem que eu trabalho com todos, respeito todos e conto com todos", disse.

O Seminário Diplomático, que decorre hoje e quarta-feira em Lisboa, é um evento anual do Ministério dos Negócios Estrangeiros que reúne os embaixadores portugueses e membros do Governo e representantes da administração pública e da sociedade civil.