A Assembleia da República reuniu, esta quarta-feira, para sessão de homenagem a Mário Soares. Os partidos recordaram o ex-Chefe de Estado como um homem que "nunca faltou ao país", apesar das divergências que com algumas personalidades da direita e extrema esquerda nacional.

Carlos César disse que Soares "foi perfeito e imperfeito, foi ousado e cometeu imprudências, apostou e ganhou, apostou e perdeu", mas "nunca foi, porém, desinteressante e muito menos irrelevante".

Nunca faltou ao seu país. Era cosmopolita. Foi sempre universalista. Foi sempre, por conseguinte, um grande português", vincou o presidente do PS, falando no parlamento, em plenário, na sessão de homenagem ao ex-chefe do Estado, que morreu no sábado aos 92 anos.

Esta sessão especial da Assembleia da República, dedicada à evocação da memória de Mário Soares é, prosseguiu Carlos César, "a celebração da sua vida e da sua dedicação patriótica" a Portugal, país "sem o qual o mundo não seria igual".

Devemos a Mário Soares a lembrança, insistente, constante da nossa vocação e da nossa projeção universal. Por isso, ele percorreu o Mundo, como nosso procurador, ajudando ao nosso reconhecimento", vincou o socialista.

César traçou uma retrospetiva da vida política do fundador do PS, lembrando aos presentes que Soares "viveu, até aos primeiros 49 anos da sua vida, sem conhecer, no seu país, o respeito pelos direitos, liberdades e garantias, públicas e individuais".

Sem o Mário Soares "antifascista, Portugal não teria o Mário Soares que "viria a ser o maior agente da consolidação da democracia política" portuguesa, sublinhou o líder parlamentar socialista.

Em razão da "eficiência do combate antifascista", Soares entrou para o Partido Comunista Português (PCP), "como o fizeram tantos outros" a quem Portugal "tanto" deve, recordou Carlos César.

Acompanhado e acompanhando aqueles a quem a autonomia da ação e do juízo políticos não dispensavam um livre arbítrio não-consentâneo com a férrea disciplina partidária, abandonou essa filiação", prosseguiu o socialista, antes de falar no papel de Soares na fundação do PS.

Citando depois palavras do Presidente da Assembleia da República, Carlos César assinalou a "frase feliz" de Ferro Rodrigues em que este definia Soares como "mais do que o militante número um do PS, o militante número um da democracia portuguesa".

"É verdade. Como presidente do PS, isso orgulha-me", concluiu César.

Os líderes parlamentares de BE e PCP destacaram as convergências recentes e as divergências históricas com o falecido Presidente da República e fundador do PS Mário Soares durante a sessão parlamentar evocativa da sua memória.

O Partido Ecologista "Os Verdes" (PEV) e o Pessoas-Animais-Natureza (PAN) destacaram ambos a importância das "Presidências Abertas", pela proximidade do então Presidente ao povo e ao território, nomeadamente um dos périplos dedicados precisamente ao ambiente, em abril de 1994, sem deixarem de admitir discordâncias com Soares.

PSD e CDS-PP salientaram o papel determinante de Mário Soares na construção do Portugal democrático, apesar de reconhecerem que foram muitas as vezes que divergiram do antigo Presidente da República.

No PSD divergimos muitas vezes de Mário Soares: não levem a mal que diga, com carinho cívico e político, que divergimos até ao fim, aos últimos escritos e intervenções. Mas nunca nos separámos dele no ponto fulcral do seu combate, defender a democracia e evitar qualquer tipo de ditadura e o primado do poder politico sobre o económico”, afirmou o líder da bancada social-democrata, Luís Montenegro, na sessão evocativa do antigo Presidente da República.

Já o CDS-PP sublinhou o papel histórico que Mário Soares desempenhou em Portugal “pelo menos no último meio século”, mas fez questão de manifestar a sua discordância com a forma como foi conduzido o processo de descolonização pelo então primeiro-ministro.

“O CDS, neste momento de justa e merecida homenagem, não pode deixar de recordar a nossa discordância com um processo de descolonização apelidado por muitos de exemplar mas que, a nosso ver, foi apressado e trouxe sofrimento a milhares de portugueses”, salientou o líder parlamentar Nuno Magalhães.

"Gratidão eterna" a Soares

O presidente da Assembleia da República, Ferro Rodrigues, assinalou o "sentimento de perda" e de "gratidão eterna" para com Mário Soares, que deixa um "legado de coragem política" num percurso em que também "cometeu erros".

Se hoje Portugal se distingue na Europa e no Mundo pelo seu grau de coesão nacional, muito o deve ao contributo liderante de Mário Soares. O sentimento de perda é assim acompanhado por um sentimento de gratidão eterna", refere o voto de pesar lido pelo presidente da Assembleia da República, Eduardo Ferro Rodrigues.

O voto, aprovado por unanimidade, foi proposto por Ferro Rodrigues e pela Mesa da Assembleia da República, constituída por deputados do PSD, PS, CDS-PP e BE, e lido em plenário na sessão de homenagem ao ex-chefe do Estado, que morreu sábado aos 92 anos.

Na abertura da sessão, e antes de ler o voto, Ferro Rodrigues salientou "os laços" que sempre o uniram ao histórico socialista e manifestou solidariedade para com a família.

O texto será votado no final da sessão evocativa, devendo recolher a unanimidade das bancadas parlamentares.

"Se a política era a vocação de Mário Soares, a liberdade era a sua causa", sublinhou Ferro Rodrigues, frisando que o estadista "lutou até ao fim" num percurso em que, disse, "cometeu erros".

Cometeu erros, certamente, mas sempre entendeu a política democrática como uma atividade apaixonante, feita de vitórias mas também de derrotas, assente em escolhas claras e convicções fortes", refere o voto de pesar.

O presidente do parlamento assinalou que "todos estiveram alguma vez ao lado dele e contra ele" e que, ao mesmo tempo, "todos lhes reconhecem a lealdade com os adversários e a tolerância com a diferença".

Mário Soares tinha a intuição dos grandes políticos e a visão dos grandes estadistas. Antecipava os grandes movimentos do seu tempo, e disso beneficiou o país, que assim melhor se posicionou perante os desafios da História", assinalou.

Descrevendo o percurso político e os cargos ocupados por Soares antes e após o 25 de Abril de 1974, Ferro Rodrigues sublinhou que, na qualidade de deputado, "honrou o parlamentarismo e a atividade parlamentar" e que como primeiro-ministro "deixou as bases do Estado Social e a adesão à então Comunidade Económica Europeia".

Enquanto secretário-geral do PS, Mário Soares "foi um dirigente influente da Internacional Socialista, o que viria a contribuir, de forma relevante, para o sucesso da democratização portuguesa e da integração europeia de Portugal".

E mesmo enquanto secretário-geral do PS, "não hesitou em ficar quase só, para defender o seu pensamento sobre Portugal e sobre a democracia", prosseguiu.

"A Assembleia da República assinala com tristeza o seu falecimento, transmitindo aos filhos, Isabel Soares e João Soares, Deputado à Assembleia da República, à sua família e a todo o Partido Socialista, o mais sentido pesar", refere o voto.

No final da votação, todas as bancadas parlamentares se levantaram e aplaudiram de pé. A bancada do PCP também se levantou mas não aplaudiu.