O líder parlamentar do PS, Carlos César, disse esta quinta-feira que a Assembleia da República, através da subcomissão de ética, deve avaliar a contratação pela Arrow Global da ex-ministra das Finanças Maria Luís Albuquerque.

Não é uma situação que possa ser displicentemente tratada. Terão de existir explicações sobre essa matéria", vincou César, que falava à margem de uma visita à feira de turismo BTL.

E prosseguiu: "Uma coisa é certa: a AR deve apreciar, no âmbito da sua [sub]comissão de ética, essa conformidade", até porque é importante haver uma "definição clara" dos interesses dos políticos.

Para César, tem de haver uma "separação entre aquilo que tem de ser separado em abono da qualidade e transparência" da vida política, e nesse sentido a contratação da antiga ministra do PSD pela empresa Arrow Global deve ser avaliada.

O PCP já anunciou que vai levar a matéria à subcomissão parlamentar de Ética.

Tem havido demasiado tempo de promiscuidade entre o poder político e o poder económico e essa é uma mensagem errada que não se deve transmitir ao povo português. Os titulares de cargos públicos devem tê-los devidamente separados do poder económico", afirmou o deputado do PCP Jorge Machado, nos passos perdidos do parlamento.

A ex-ministra das Finanças foi nomeada para diretora não executiva do Arrow Global, o qual tem em Portugal clientes como o Banif, o Millennium BCP ou o Montepio, com efeitos a 07 de março e que a agora deputada vai integrar o comité de risco e auditoria.

Esta promiscuidade de uma deputada, que foi ministra das Finanças, que esteve diretamente relacionada com o processo do Banif e agora é contratada por uma empresa que ganhou a carteira de créditos mal parados desse mesmo Banif, é uma matéria que, do ponto de vista da ética republicana, deveria suscitar sérias questões. Mas, lá está, em matéria de ética, cada um tem a que tem", salientou Jorge Machado.

Segundo o deputado comunista, "há matérias de legalidade e devem ser avaliadas pela subcomissão de ética".

Há sérias dúvidas relativamente ao estatuto dos deputados, seu regime de incompatibilidade e impedimentos a que estão obrigados, e também a violação do chamado período de nojo, segundo o qual titulares de cargos públicos, quando cessam funções, não podem exercer atividade nos ramos que tutelaram", afirmou.

Também a porta-voz do Bloco de Esquerda (BE), Catarina Martins, afirmou esta quinta-feira em Coimbra que a contratação da ex-ministra das Finanças Maria Luís Albuquerque pelo grupo de gestão de crédito Arrow Global "deve ser investigada".

A contratação de Maria Luís Albuquerque pelo grupo britânico Arrow Global, que tem em Portugal clientes como o Banif, Millennium BCP ou Montepio, é "uma situação verdadeiramente inaceitável" e que "deve ser investigada", disse Catarina Martins.

Maria Luís Albuquerque foi trabalhar para a empresa que lucrou com o que fez no Banif, ao arrastar a situação", que tem neste momento "a faca e o queijo na mão para continuar a lucrar com a forma como forem geridos os ativos que ainda estão no Estado", sublinhou a porta-voz do BE.

A dirigente bloquista frisou que a ex-ministra das Finanças e atual deputada do PSD "está a trabalhar para um fundo abutre que lucra com a fragilidade do sistema financeiro português e que lucra com os ativos tóxicos que estão na mão do Estado português".

Catarina Martins frisou que a Arrow Global "fez dinheiro comprando crédito mal parado ao Banif", quando o Banif "e todo o sistema financeiro era tutelado por Maria Luís Albuquerque", recordando também que este grupo britânico comprou a Whitestar, empresa "que está a avaliar neste momento os ativos do Banif que o Santander não quis e que estão no Estado".

Vamos ter a comissão de inquérito do Banif e há muitas perguntas que têm de ser respondidas", disse ainda Catarina Martins, que falava aos jornalistas à margem de uma visita à AMI de Coimbra, para debater as propostas do Orçamento do Estado 2016 de combate à pobreza.

Maria Luís Albuquerque afirmou esta quinta-feira que a contratação não tem "nenhuma incompatibilidade ou impedimento legal" com atuais ou anteriores funções políticas.

A função de administradora não executiva não tem nenhuma incompatibilidade ou impedimento legal pelo facto de ter sido ministra de Estado e das Finanças e de ser deputada. Qualquer outra leitura que possa ser feita desta nomeação só pode ser entendida como mero aproveitamento político-partidário", afirmou Maria Luís Albuquerque, em comunicado.