O secretário-geral do PS apelou à coragem para a construção de uma «democracia de confiança, num discurso em que criticou a «mão invisível ultraliberal» e a nova «cortina de ferro» europeia que divide norte e sul.

António José Seguro falava na sessão solene comemorativa dos 40 anos do 25 de Abril de 1974, na Assembleia da República, numa intervenção em que vincou a gratidão dos portugueses em relação à coragem dos «capitães de Abril» no derrube da ditadura.

«Obrigado capitães de Abril, obrigado pela vossa generosidade, obrigado pelo vosso desprendimento. Os capitães de Abril conquistaram por mérito próprio um lugar na História de Portugal. Nada nem ninguém pode alterar esse julgamento que a História já consagrou», disse, recebendo palmas da bancada do PS.

Numa intervenção aplaudida de pé pelos deputados socialistas, o secretário-geral do PS falou sobre os progressos registados ao longo dos últimos 40 anos, mas considerou que há valores democráticos (como o Estado social e a matriz do ideal europeu) que «estão hoje ameaçados».

Seguro criticou então «governantes que prometem uma coisa e fazem outra, que não assumem as suas verdadeiras intenções, nem as consequências das suas políticas», e insurgiu-se contra as conceções que pretendem impor «um pensamento único».

«A mão invisível de que os ultraliberais tanto falam tornou-se infelizmente bem visível na vida dos portugueses. Essa mão empobreceu os portugueses, aumentou as desigualdades e está a destruir a classe média», apontou numa crítica ao atual executivo.

O secretário-geral do PS contrapôs que Portugal precisa de construir «uma democracia de confiança, onde a política e negócios não se misturam e a justiça não prescreve para os poderosos».

«Uma democracia de confiança que respeite e dê segurança aos portugueses que trabalham uma vida inteira e que abra as portas do futuro à geração de jovens mais qualificada de sempre. Uma democracia de confiança que desenvolva uma economia de mercado sem ser à custa dos direitos dos trabalhadores e que fale verdade aos portugueses», especificou o líder socialista.

Após o seu diagnóstico à situação nacional, António José Seguro defendeu a necessidade de «coragem» para afirmar Portugal na Europa, «sem complexos e sem subserviência», e traçou um panorama sombrio sobre a atual realidade europeia.

«Devemos isso sim lutar contra esta nova cortina de ferro com que tentam dividir-nos entre países cumpridores e países incumpridores; entre norte e sul; entre bons e maus países. O ideal europeu é de união, não de divisão. É um ideal de coesão e não de exclusão. É um ideal de cooperação e não de competição», declarou, vincando a sua defensa a favor de uma União Europeia de Estados-membros iguais.

Ainda num ataque à lógica de pensamento único político e económico, Seguro deixou outra mensagem: «Ao contrário do que alguns procuram sugerir, enquanto há vida há sempre alternativa, porque essa é também a lição do país de Abril», sustentou, já depois de defender políticas alternativas «de acordo com critérios de equidade e de sustentabilidade».