O candidato a secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU) António Guterres garantiu esta terça-feira que, se for eleito, não será “nem um secretário nem um general”, prometendo diálogo com os restantes corpos da organização. Guterres defendeu a sua candidatura numa audição que teve lugar na sede da ONU em Nova Iorque, e que contou com a presença dos 195 membros da organização.

“Não serei um secretário nem serei um general."

O antigo primeiro-ministro foi ouvido durante cerca de duas horas e 15 minutos, tendo alternado frequentemente entre o inglês, o espanhol e o francês. E respondeu a mais de 50 perguntas dos representantes dos estados-membros sobre temas que foram desde a gestão da organização às missões de paz, alterações climáticas e Direitos Humanos.

Guterres recusou a ideia de ser um secretário, defendendo que "o secretariado é supostamente uma função burocrática e eu não gosto de burocracia". "O que precisamos é de movimento, de capacidade de ter resultados, de mobilizar e de ter entusiasmo no que fazemos”, acrescentou.

Já quanto à ideia de ser um general, lembrou que “um general está no comando", mas que "um secretário-geral não está no comando, tem bons ofícios". Para Guterres, um secretário-geral "deve ter uma capacidade de diálogo com todos os corpos da ONU para se moverem na mesma direção, deve respeitar os Estados-membros e os outros corpos da organização”.

Numa resposta ao embaixador de Angola, afirmou que “deve haver um diálogo claro e aberto” entre o secretário-geral, a assembleia-geral e o Conselho de Segurança das Nações Unidas.

Sobre o Conselho de Segurança, Guterres limitou-se a recordar a posição do ex-secretário-geral da ONU Kofi Annan, que considerou que a reforma da organização só estará completa com a reforma daquele órgão, que foi criado no pós-II Guerra Mundial, mas entretanto “o mundo mudou”.

Além do diálogo, outro tema em que o candidato insistiu nas respostas a membros da assembleia-geral e a representantes da sociedade civil foi o da descentralização como forma de aumentar a eficácia da organização, invocando a sua experiência de dez anos à frente do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR).

Guterres recordou que reduziu os funcionários na sede (Genebra, na Suíça), mas triplicou a atividade da agência.

“É possível fazer mais com maior descentralização e garantindo que somos mais eficientes.”

Quanto às operações de manutenção de paz em que a ONU se envolve, Guterres defendeu que os contribuintes financeiros também devem contribuir com tropas e deve garantir-se que os homens no terreno têm os meios de que necessitam para cumprir o seu mandato.

Sobre o Médio Oriente, Guterres defendeu a solução de dois Estados (Palestina e Israel).

“Estou totalmente comprometido para fazer tudo o que eu possa, e claro que há muitas coisas que eu não consigo fazer, para que esta solução seja uma realidade.”

Guterres sublinhou que a ONU deve ser “muito forte” na condenação de fenómenos como xenofobia, antissemitismo ou islamofobia.

E defendeu que a comunidade internacional está a falhar na prevenção e resolução de conflitos e na proteção global contra o terrorismo.

"Prevenção, prevenção, prevenção"

Já depois da audição, em declarações aos jornalistas, Guterres vincou que a sua prioridade, caso seja eleito, é "prevenção, prevenção, prevenção”.

"Estamos a gastar 70% dos nossos recursos em [operações de] manutenção de paz. E estamos a gastá-los onde não há paz para manter. Estamos a ver os impactos das mudanças climáticas, os problemas causados pela desigualdade, pela falta de inclusão. Prevenir, focando nos pilares da atividade da ONU de uma forma holística, é claramente a minha prioridade pessoal."

Perante cerca de três dezenas de jornalistas que o aguardavam em Nova Iorque, Guterres disse que estava "muito satisfeito por ter a oportunidade" de explicar os seus objetivos publicamente.

"Acredito que sou uma pessoa extremamente privilegiada. Tive a oportunidade de servir em diferentes cargos, acumulando uma vasta experiência e isto cria uma obrigação de serviço público", disse Guterres, explicando os motivos porque se candidata.

O antigo primeiro-ministro português recordou o seu trabalho, na juventude, de voluntariado cívico em bairros pobres de Lisboa, e que foi lá que chegou à conclusão de que a única resposta para os problemas daquela população era política.

"Não podem entender a frustração de tentar ajudar pessoas em situações desesperantes e saber que não temos solução. Acho que, em nenhum outro lugar do mundo, temos a oportunidade de atacar as causas iniciais do sofrimento humano do que no centro do sistema da ONU. E é por isso que sou candidato", disse.

Esta é a primeira vez que a ONU abre as portas no processo de seleção do novo secretário-geral, que irá substituir Ban Ki-moon, respondendo a pressões internas e externas para tornar o processo mais aberto ao escrutínio do público.