O ex-alto-comissário da ONU para os Refugiados António Guterres afirmou hoje que a sua candidatura a secretário-geral das Nações Unidas tem como "único objetivo pôr a experiência ao serviço das causas nobres da humanidade".

"Esta é uma candidatura que não visa ninguém, que não é contra nada nem ninguém e que tem como único objetivo pôr a experiencia ao serviço das causas nobres da humanidade, numa atitude de disponibilidade mas também de grande humildade", disse Guterres à imprensa.

Guterres, que falava no Parlamento à saída de uma audição na comissão de Negócios Estrangeiros, considerou ter vivido "situações únicas" que lhe deram "um conjunto de experiências e de capacidades" que considera ter "o dever de pôr a render" através do "serviço público".

O ex-primeiro-ministro português referiu ter "vivido uma revolução democrática e lutado ativamente" para consolidar a democracia, ter tido "oportunidade de exercer responsabilidades políticas muito novo em Portugal" e ter exercido o cargo de alto-comissário por 10 anos, onde pôde "trabalhar com gente extremamente generosa em prol dos mais vulneráveis, vivendo por dentro os conflitos mais terríveis e as situações de pobreza e de vulnerabilidade mais difíceis".

O Governo português anunciou em janeiro a apresentação da candidatura de António Guterres a secretário-geral das Nações Unidas, destacando a sua "longa experiência política" e "a forma exemplar" como exerceu cargos internacionais.

António Guterres concorre juntamente com a diretora da Organização da ONU para a Educação, Ciência e Cultura (UNESCO), a búlgara Irina Georgieva Bokova, a ministra dos Negócios Estrangeiros croata, Vesna Pusic, e o ex-presidente da Assembleia-Geral da ONU Srgjan Kerim, da Croácia.

O próximo secretário-geral da ONU assumirá funções a 01 de janeiro de 2017, substituindo o sul-coreano Ban Ki-moon, que cumpriu dois mandatos de cinco anos.

Guterres defende “mega-acordo” para reinstalar centenas de milhares

António Guterres também defendeu hoje que só um "mega-acordo" entre países europeus e vizinhos da Síria para a reinstalação de centenas de milhares de pessoas pode evitar uma "tragédia humanitária de proporções calamitosas".

"Alguns [países] europeus estão abertos" a um tal acordo mas, "se não for possível à escala da União Europeia", deve ser feita uma "coligação dos países que estiverem disponíveis para isso", disse.

"Se não, vamos assistir a uma tragédia", frisou, depois de referir os milhares de mortes provocadas pela "condição absurda de travessia do Mediterrâneo e o movimento caótico pela Europa".

Para Guterres, um acordo é a única forma de evitar a movimentação de milhares de pessoas pelos Balcãs que provocou nas opiniões públicas dos vários países o receio de estar perante "uma invasão da Europa".

O caos a que se assistiu não se deveu ao elevado número de migrantes, disse, sublinhando que chegaram em 2015 dois migrantes por cada 1.000 cidadãos europeus, mas à "total ausência de resposta" da União Europeia.

E nesse aspeto, frisou, "a Alemanha ainda é a grande válvula de escape do sistema", porque muitos países europeus "fecharam a porta" deixando para a Alemanha a resolução do problema.

Guterres advertiu para a situação limite de que se aproximam os países vizinhos da Síria - Turquia, Jordânia e Líbano, que acolhem mais de quatro milhões de refugiados - e para as "consequências imprevisíveis" que daí podem advir, como uma expulsão dos refugiados para a Síria.

O ex-alto-comissário defendeu também a necessidade de "uma campanha muito forte de pedagogia" que permita que o debate sobre migrações "deixe de ser esquizofrénico", com as sociedades europeias cada vez mais envelhecidas e ao mesmo tempo a recusarem receber migrantes.

"Fazer compreender às opiniões públicas que todas as sociedade serão necessariamente multirraciais, multiétnicas e multirreligiosas" e, para isso, "investir na criação de condições" para a integração dos estrangeiros.