António Costa estudou vários anos no ensino artístico integrado e confessou hoje que o país foi “poupado a um mau músico e a um péssimo bailarino”. Mas sabe dar uns toques na bola. Foi assim que começou o seu dia dedicado à educação e à ciência, numa escola secundária de Águeda, a que se seguiu uma visita ao Conservatório de Música da mesma localidade. Confissões à parte, o líder do PS deixou promessas e fez um retrato do estado da educação, com uma frase que fez lembrar o “há mais vida para além do défice” de Jorge Sampaio.

“As metas a que estamos obrigados não são só as do défice e da dívida. Já basta não cumprirmos essas (…). O maior défice que o país acumulou foram as suas baixas qualificações”


O leque de preocupações no Ensino e na Ciência é vasto. O líder do PS reviu-se nelas. Mas foi alertado por duas investigadoras para a contaminação do discurso e das promessas políticas centradas apenas em números e na oferta de “cheques”, mesmo no PS. Reconheceu o “esmagamento do espaço do debate político pela questão financeira”. “É muito difícil romper”.

Quem faz a ciência avançar diz que quer, sobretudo, “dignidade” nas suas instituições e “alma” em quem norteia os destinos do país. “Vai ser preciso não uma alma de fé, mas uma alma de fazer e de construir”, disseram-lhe. 

Costa ficou ainda de sobreaviso com a “pouca insistência” naquilo que deveria ser o “orgulho” do partido, o Serviço Nacional de Saúde e o sistema científico (para o qual muito o socialista Mariano Gago contribuiu e que hoje foi várias vezes lembrado com nostalgia).

Acho que às vezes o PS anda a brincar com isto como se fosse o Bambi.

Temos de ganhar por sermos melhores e não por os outros serem piores.


Estes foram mais dois conselhos/reparos vindo da plateia que estava no auditório IS3, no Porto.

Alma foi o que não faltou ao líder no discurso da noite. O B ambi ganhou impulso e pulou a cerca, acelerando no ataque político a Passos Coelho e Paulo Portas. Mas dos números não saiu. Já noite cerrada, no concorrido jantar-comício em Vila do Conde.

Sempre com a música “À minha maneira”, dos Xutos e Pontapés, que já não sai da cabeça de quem acompanha a caravana. Pela manhã, as notas musicais foram outras. Tocou-se e ouviu-se o trompete de Márcio, aluno do Conservatório de Música de Águeda.

 
O ensino artístico sente-se mal tratado pelo Governo, segundo os responsáveis desta escola e António Morais, da Fenprof, que também esteve presente.

Aluno “prodígio”, Márcio rapaz terminou o 9º ano, mas um futuro possivelmente hipotecado, porque os pais não têm dinheiro para pagar as propinas. “O Conservatório não vai deixá-lo ir embora, nem pensar”, diz o responsável da instituição, dando este exemplo para retratar o desinvestimento no ensino artístico que, de resto, têm feito vários protestos e greves nos últimos anos.

António Costa lembrou que a revalorização e diversificação do enriquecimento curricular é também uma “condição essencial” para cumprir as metas europeias para a educação.

“O que seria absolutamente imperdoável é que a geração do Márcio e os Márcios do país não pudessem realizar o seu desenvolvimento por questões económicas. Não nos podemos dar ao luxo de desperdiçar talentos e de atrair novos talentos”, defendeu, selando um “compromisso” – palavra sua – com o ensino artístico.

“Garantir que os Márcios não precisarão de uma subscrição pública” para terem um ensino de qualidade, atirou, repetindo a crítica que já tinha feito a Passos Coelho a propósito dos lesados do BES, quando o primeiro-ministro se dispôs a financiar uma petição pública para ajudar um dos lesados a ir para os tribunais tratar do assunto.
 

Escola não é para inglês intimidar


Já no agrupamento de escolas Ferreira de Castro, Costa foi confrontado com todas as perguntas fáceis de adivinhar introduziu outra: a surpresa que lhe causou o despacho do Governo, esta semana, impondo o Inglês como condição para os alunos passarem no quarto ano. E mostrou-se contra, ironizando que é uma medida “absolutamente extraordinária” quando o Governo provocou uma redução do investimento no ensino básico.

“A função da escola não é avaliar. A função da escola é formar. A avaliação é só uma ferramenta do processo educativo”


A prioridade deve ser, defendeu, aumentar o número de alunos que têm inglês e a qualidade do ensino. “Uma escola de inclusão”.

O candidato a primeiro-ministro prometeu repor e garantir até aos 14 anos a escola a tempo inteiro, referindo-se também às atividades extra-curriculares (AEC’s). Foi questionado sobre as turmas de 30 alunos, mas não chegou a responder.

Mostrou-se a favor da descentralização, “se for bem feita, tem vantagens, mas em caso algum  limitar autonomia das escolas”.

Tentou tranquilizar os docentes, dizendo que quer suspender prova de acesso à profissão. “Não é necessária, deve ser eliminada”. E, no que toca aos concursos,“estabilizar os corpos docentes, nas escolas o mais cedo possível”.

Voltou a dizer que o” que está previsto é 35 horas”, regressar aos antigos horários de trabalho na função pública. Quer também, primeiro, “acelerar a reposição dos cortes feitos nos vencimentos, de modo que a partir de 2018 carreiras sejam descongeladas”. Costa assumiu que “não é possível financeiramente” fazer as duas coisas ao mesmo tempo.

Admitiu, por outro lado, que é preciso “corrigir os erros” do programa Novas Oportunidades do anterior governo socialista, mas quer repescá-lo, acusando o atual executivo de ter feito pior, “aniquilando” este tipo de formação. “É imperdoável”.
 

De bolsa em bolsa


Já entre os investigadores, nas recentes e modernas instalações do IS3, quem anda de bolsa em bolsa quis uma clarificação do que Costa pretende fazer se vier a ganhar as eleições.

“Estabilidade das regras do financiamento, estabilidade das regras da avaliação, estabilidade das relações contratuais. Não é possível continuarmos a ter precarização (entre) os investigadores. E sobretudo estabilizar a visão estratégica para o país”, respondeu.

Numa altura em que as sondagens diárias mostram um PS a ziguezaguear entre o avanço da direita e uma maior disputa à esquerda, um poema de Pedro Homem de Mello, inscrito na parede a azulejo do Conservatório de Música de Águeda, rezava assim: "Atraz do senhor dos Passos pela estrada de Assequins".
António Costa leu. À noite, escreveu o seu próprio poema dos "ilusionistas" e "amigalhaços". A todo o gás, pelo meio deixou escapar uma "enorme" herança que não tem querido verbalizar.