Hoje sim, entupiu. No último dia da campanha eleitoral, os apoiantes do PS desceram – e encheram - o Chiado até ao Arco da Rua Augusta. “Isto hoje é um mar de gente”, ouvia-se logo ao pé da Brasileira. E foi. Numa campanha de altos e baixos em que a onda da confiança tremeu, foi a jogar em casa que António Costa mais deu cartas.
 
Na rua, a TVI24 ouviu uma apoiante dizer “Isto ou vai ou racha”. É o sentimento no último dia de campanha, ensombrada pelas sondagens pouco favoráveis aos socialistas. A voz de Costa rachou ao almoço, mas no último discurso da campanha, no comício em Almada, tentou “falar baixinho para chegar até ao fim”. E conseguiu.
 
O último dia da campanha eleitoral foi uma corrida de cem metros até à meta. Apesar da “pancada” e das dificuldades destes 15 dias.
 

“Agradeço de todo o coração a todas e todos os participantes, contra ventos e marés, levando pancada por todos os lados, se mobilizaram com notável energia”

 
A esses primeiro, e aos indecisos e descrentes depois, foi a eles que Costa dirigiu as suas últimas palavras antes da hora decisiva, num esforço por dizer que os políticos não são todos iguais.  
 

"Desculpem, mas não somos todos iguais. Nem fomos nunca todos iguais. E é sempre difícil, obviamente, falar em causa própria, mas depois de tudo o que eu já ouvi nesta campanha eleitoral, também para ser sincero, há limites para ouvir tudo. E há, de facto, uma grande diferença entre mim e o doutor Passos Coelho. É que o doutor Passos Coelho não cumpriu no Governo o que prometeu fazer na campanha eleitoral. Passados quatro anos, não deu satisfações, nem pediu desculpa".


António Costa quis desconstruir o mito do “papão” de que o seu programa eleitoral é igual ao de sempre. E aqui, é inevitável pensar na governação socrática. Mas o que o líder do PS especificou foi a distinção contra a direita:  "Estão enganados. Não é nem podia ser: os tempos são outros e os programas são outros. Só quem não tivesse juízo é que em condições diferentes apresentar o mesmo programa. Bem sei que eles [a direita] que não têm juízo apresentam mesmo programa". 
 
Mal da voz, foi-se entusiasmando no discurso, nas advertências e nos recados, mais uma vez a Cavaco Silva:
 

“O voto é a arma do povo,  para não deixar para ninguém, nem para jogos parlamentares, nem para a lotaria, nem para a vontade do Presidente da República a escolha do governo que querem para governar Portugal".


Se ontem só falou em maioria parlamentar, hoje pediu uma maioria "clara, inequívoca e uma maioria absoluta". Lá está, para que "ninguém ponha em causa o direito de o PS governar em Portugal". 

"Procuraremos sempre um caminho alternativo ao senhor Schäuble porque sabemos bem que o caminho do senhor Schäuble não nos serve a nós, é prejudicial à economia portuguesa".

António Costa terminou o discurso bem disposto. A voz ajudou. "Mas não quero agora que vocês se constipem e que se crie uma onda de constipação generalizada para abstenção", gracejou.

Chiado abaixo, esperança acima

 
As sondagens continuam a deixar as pessoas confusas, várias dizem que não percebem, porque “todos estão contra”, “todos reclamam destes”. Estes, Passos Coelho e Paulo Portas. 

António Costa esforçou-se toda a campanha no apelo aos indecisos e aos descrentes na política e nas alternativas. 

Daqueles que têm memória e coração socialista, muitos estavam ali a apoiá-lo na arruada. Rodolfo Crespo, 73 anos, estava mesmo junto à “bolha” que envolvia o líder e esse foi um tema inevitável: “Não sei se as sondagens são fiáveis ou não. Uma coisa é certa: a atual maioria vai perder”.
 
Socialista de gema acompanha todas as campanhas desde o 25 de Abril. E Rodolfo vê como ponto alto o primeiro-debate entre Passos e Costa (ainda em pré-campanha). Como ponto fraco, as “cenas de campanha escusadas”, como a falta de diálogo e esclarecimento por parte dos partidos. Lamenta que tenha funcionado “como se o PS fosse Governo”.

Hoje, e apesar disso tudo, o candidato a primeiro-ministro teve razões para estar de sorriso aberto. Talvez por isso, e respondendo prontamente aos seus apelos, o slogan mais repetido no Chiado tenha sido “O povo vai votar e o PS vai ganhar”. Repetidamente. Em uníssono.

Bandeiras e punho cerrado à imagem do símbolo do partido. Sentiu-se esperança. Os confetis que vinham do céu ajudaram também a criar esse cenário. Mais os balões com as cores da bandeira de Portugal que foram atirados ao alto. "Isto agora é até rebentar". Domingo se verá o que está dentro de cada um deles.