O secretário-geral do PS, António Costa, afirmou que "respeita" a decisão "pessoal" do antigo primeiro-ministro José Sócrates de abandonar o seu partido, adiantando, no entanto, que ficou "surpreendido" com os motivos invocados.

"É uma decisão pessoal de José Sócrates que tenho obviamente de respeitar", mas "fico surpreendido, porque não há qualquer tipo de mudança da posição da direção do PS sobre aquilo que escrupulosamente temos dito desde o início: Separação entre aquilo que é da justiça e aquilo que é da política", afirmou.

Depois de defender a tese de que a direção do PS não alterou a sua posição em relação ao acompanhamento de processos como o da "Operação Marquês", António Costa voltou a transmitir uma mensagem de confiança no funcionamento do sistema de justiça.

"Temos todos os motivos para confiar no nosso sistema de justiça e no nosso Estado de Direito, que tem uma dupla dimensão: a da independência total da investigação e a da presunção da inocência que também tem de ser respeitada. Quanto à decisão pessoal do engenheiro Sócrates, tenho de a respeitar", declarou.

Interrogado se José Sócrates não foi alvo de uma condenação antecipada quando o presidente do PS, Carlos César, e o porta-voz deste partido, João Galamba, afirmaram que se sentem envergonhados com os casos judiciais que envolvem socialistas, António Costa contrapôs que, "caso se ouça o que foi dito, verificar-se-á que nenhum disse isso".

António Costa repetiu depois que tem de "respeitar a posição pessoal do engenheiro Sócrates".

"Um líder do partido, obviamente, nunca pode ficar feliz quando um qualquer seu militante deixa as fileiras, para mais alguém que foi secretário-geral [do PS]. Agora, é uma decisão pessoal dele [José Sócrates] - e tenho de a respeitar", insistiu.

Confrontado com as queixas do antigo primeiro-ministro de que o PS esteve em silêncio perante "violações do segredo de justiça" no âmbito da Operação Marquês, o atual líder socialista respondeu que, "desde há muito tempo, há um entendimento divergente" em torno dessa questão.

"O PS entende que não tem que interferir no sistema de justiça, que tem os mecanismos próprios para funcionar e investigar. Quem goza da presunção da inocência pode exercer o seu direito de defesa - e tudo deve ser respeitado. Quanto ao mais e quanto ao caso [de José Sócrates], só tenho a dizer que respeito naturalmente a sua posição pessoal", acrescentou.

José Sócrates, 60 anos, é o principal arguido na Operação Marquês, em que está acusado de vários crimes económico-financeiros, incluindo corrupção e branqueamento de capitais.

Num artigo publicado hoje no Jornal de Notícias, na sequência de declarações do presidente do PS, Carlos César, e do porta-voz dos socialistas, João Galamba, José Sócrates escreveu que a sua saída deste partido visa acabar com um "embaraço mútuo", após críticas que, na sua opinião, ultrapassam os limites do aceitável.

Sócrates aderiu ao PS em 1981, e foi secretário-geral do partido entre 25 de setembro de 2004 e 06 de junho de 2011.

Em 2005, obteve a primeira maioria absoluta do PS em eleições legislativas e foi primeiro-ministro até 2011, depois de o seu Governo ter pedido ajuda financeira ao Fundo Monetário Internacional, Comissão Europeia e Banco Central Europeu.

António Costa falava aos jornalistas em Toronto, antes de iniciar o terceiro de quatro dias de visita oficial ao Canadá.