"Sou um otimista, tem-me feito bem à saúde". Se fosse médico, António Costa diz que era essa a receita que prescreveria. Um otimista de sorriso aberto no final do 21º Congresso do PS, onde soube, no entanto, fechar a cara à Comissão Europeia, mais do que batendo o pé contra as sanções a Portugal. O secretário-geral do Partido Socialista vestiu sempre a pele de primeiro-ministro, no seu discurso que durou uma hora, acusando a Comissão Europeia de ter uma postura "imoral". Quis ir até mais longe na contestação, propondo uma resolução da Assembleia da República contra a tal intenção.

"Só esta semana, 1.000 seres humanos, 1.000 seres humanos, pessoas como nós, morreram afogadas no Mediterrâneo a tentar chegar à Europa, perante este quadro UE entreter se Governo português excedeu em duas décimas limites do défice orçamental"

Uma "discussão absurda, profundamente injusta". Mesmo "imoral", nas palavras de António Costa. "Depois de tudo aquilo que este país sofreu nos últimos quatro anos e depois de terem elogiado politicas do anterior governo, vêm agora castigar essas políticas", atirou, num recado assim, feito no plural para os seus interlocutores europeus.

Usou ainda o argumento de que "é sobretudo incompreensível virem agora punir Portugal por aquilo que aconteceu em 2015, quando finalmente neste ano de 2016, na pior das previsões da comissão europeia e da OCDE, pela primeira vez se cumprirá objetivo de ter défice abaixo de 3%". 

No plano ideológico, o líder do PS criticou ainda que a Europa assista "impávida e serena" ao facto de uma série de países, que mais recentemente aderiram à UE, "e que ainda há 10 anos festejaram a abertura das suas fronteiras para o lado de cá, estejam agora a fechar as suas fronteiras porque não querem aceitar os outros que vêm do lado de lá". 

"Não é capitulando perante o neoliberalismo que nós defenderemos a Europa. Deixaríamos os povos sem alternativa"

Destacou que também dos sociais-democratas europeus ouve-se um discurso nesse sentido e que até o alemão Martin Schulz, presidente do Parlamento Europeu, e que marcou presença no Congresso, é contra sanções para Portugal.

"Não podemos estar na UE obrigados e submissos"

Apesar de o momento atual ser "difícil" para quem é socialista na União Europeia, António Costa tem a "certeza" de que é impossível sê-lo fora dela. Deu como exemplos as alterações climáticas, o comércio internacional, o terrorismo. 

A posição de Portugal, essa, tem de ser ativa: "Não podemos estar numa UE obrigados, à espera de nos dizerem como vai ser. Não temos de embarcar em bravatas nem aceitar uma posição de submissão".

A mesma coisa em relação à união monetária, ao euro: "Não há uma moeda de primeira e uma moeda de segunda". A resposta tem de ser "um orçamento partilhado que corrija as assimetrias". "Quando ouço o dizerem que a França é a França, Portugal também é Portugal", ironizou.

"Ou são os socialistas a dizerem basta desta deriva neoliberal ou estaremos a fomentar o populismo o nacionalismo e a extrema direita que continuam a ameaçar a Europa".

Ficou a promessa: "Este governo, este partido na AR ou no Parlamento Europeu bater-se-á porque nenhuma sanção seja aplicada a Portugal. Nada o justifica, seria uma enorme injustiça para os portugueses".

António Costa vê "com muito gosto" que o Presidente da República esteja "a defender a dignidade dos portugueses e a bater-se" em Portugal e em Berlim pela causa nacional.

A solução passa, assim, por existir uma sintonia das instituições em Portugal sobre esta matéria. Por isso, pediu que seja aprovada uma resolução na Assembleia da República contra a aplicação de sanções ao país por parte da Comissão Europeia. 

Não há "feridas por sarar" com Assis

O discurso de encerramento do congresso também lembrou que houve quem falasse na dificuldade das "feridas por sarar" dentro do partido. Aí, António Costa abriu o rosto e congratulou-se por se ter conseguido ultrapassar os problemas.

"Como aqui ontem disse o Francisco Assis, a diferença nunca foi dissidência" 

Para o líder socialista, o PS mostra que existe um "debate aberto". "Saímos daqui um partido unido e mobilizado". 

Três dias de congresso passados, o último contou com um protesto de muitas sirenes à porta da Feira Internacional de Lisboa, onde se realizou a reunião magna dos socialistas. Uma manifestação de colégios vindos do norte do país, contra os cortes nos contratos de associação. António Costa respondeu-lhes no seu discurso, com uma defesa acérrima do ministro da Educação.

 

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