Manuel Alegre, António Arnaut e António Costa. Os três ergueram a voz em Coimbra para lembrar o 25 de Abril, a construção do Estado Social e o que está em causa nestas eleições. O líder do PS, que vinha pedindo maioria absoluta na última semana, neste comício falou apenas em “maioria parlamentar”.

Assumindo que não é aos 54 anos que vai deixar de ser “moderado”, o candidato a primeiro-ministro recordou que o PS, nos momentos críticos, não teve medo de ir para a rua, mas também não teve problemas em tentar o diálogo. Transportou essa ideia como cenário pós-eleitoral.

“Sempre que ganhámos esses combates, soubemos estender as mãos aos nossos adversários e prosseguir uma política de concórdia".


Ganhar apenas com maioria relativa é uma possibilidade – que dentro do próprio PS é tida em conta – e o líder tem vindo a sublinhar a importância da governabilidade. É a “questão central” nestas eleições, assume.

"Quero ser mais uma vez muito franco: o PS deixa muito claro que considera que as melhores condições para poder substituir o atual governo, executar o seu programa, cumprir os compromissos (…) é governando com uma maioria parlamentar que nos dê estabilidade à nossa ação governativa". 


Os ataques vindos dos partidos mais à esquerda – CDU e Bloco – não têm ajudado à perceção de que será possível um governo de uma esquerda unida. E, nisso, hoje foi Manuel Alegre quem voltou a puxar as orelhas a esses partidos.
 

Ultrapassar os "traumas" do Verão Quente


Mais certeiro neste discurso do que em Lisboa, assumiu que os “traumas do Verão Quente de 1975” ainda permanecem na sociedade portuguesa, que é um “problema de fundo”, mais do que político, também afetivo e emocional.

Mas, ao mesmo tempo, defendeu que "não é racional", num momento destes, que "parte das esquerdas gaste a sua energia a fazer do PS o seu inimigo principal".

 "Não podemos ficar eternamente presos a esse trauma e a essa divisão. Não podemos. Não podemos. Temos todos de ultrapassar traumas, dogmatismos e sectarismos. Queria aqui citar Dr. Álvaro Cunhal. Tivemos grandes combates, mas ele nunca se esqueceu que há uma fronteira entre a esquerda e a direita”.


Recordou que Cunhal “teve a lucidez e a coragem politica” de convocar o congresso extraordinário e de lançar a palavra de ordem para o voto em Mário Soares. Deixou a “proposta”, em tom de desafio, tanto ao Bloco como ao PCP: "falar verdade e a dizer o que querem". 

Já António Costa direcionou a seta para o maior alvo de sempre dos seus discursos: a coligação de direita, que acusou de ser “radical”. E de “nunca” ter tido essa característica de conseguir “acordos políticos” como o PS.
Costa, que hoje não pediu maioria absoluta, disse que não lhe falta “força nem ânimo”.

"Porque não estou aqui por mim. Eu estou aqui e decidi voltar 21 anos atrás e é como se estivesse a entrar no meu antigo escritório de advogados, tivesse ido buscar a minha toga e tivesse vindo para a barra bater-me pela representação e defesa daqueles que não se podem defender sozinhos", afirmou, arrancando aplausos e pedindo a todos os portugueses que sejam “os advogados”. “Porque sem nós estão ao abandono, porque sem nós estarão humilhados a partir de domingo, porque sem nós serão apelidados de piegas”.